Enquanto se barbeia, juntando as sobrancelhas consternadas no espelho, ensaia, em meia-voz, grave: “Mortes violentas não deviam acontecer. É lamentável, lamentável que tenhamos chegado a esse ponto. Sofro pelo ser humano. O que ele fez, cento e onze mortos e tudo, foi um ato de intolerância e preconceito. Mas não acho que devesse pagar com a vida. A vida é sagrada, mesmo a de gente como ele.” Isso que ia dizer. “Mas, ah, bem feito, bem feito, bem feito”, sacode com mais força o Mach3, embaixo da torneira aberta, para tirar toda a espuma, com os restos da barba do feriado prolongado. “Mereceu, mereceu!".
No CD player à prova de vapor, põe Rosa Passos, alto mesmo, porque no prédio só tem solteiros e descasados, que se fodam. Vem a chuva, molha o meu rosto e então eu choro tanto. E talvez pela música, ou pela água morna do chuveiro na nuca, alguma coisa, alguma coisa o põe triste, irremediavelmente triste. “À beira de um Rivotril, a esta hora?” Mas a piadinha não faz efeito.
Não sabe bem se chora, porque a água do chuveiro se confunde com seu pranto. E lembra-se, como numa abertura de um filme do Woody Allen, sépia e meio fora de ritmo, as corridas pelas montanhas de Atibaia. O cocker spaniel amarelo. “Simenon”, o nome pula na testa, junto com a sensação de abraçar o cachorro e de suas mordiscadas de brincadeira. Seus pais brigando na mesa, com comida em volta; brigando perto do móveis de madeira maciça da casa de Atibaia; brigando no banheiro de mármore do apartamento em São Paulo, com a porta fechada; sempre brigando. O dia em que ela avisou que ele só voltaria um fim-de-semana sim, outro não. Simenon cego. Os olhos opacos do Simenon. A cara do pai, torta de explicações impossíveis. As suas brigas com a mãe. A fuga de casa. Maconha. A cara da mãe, sem saber se ria, chorava ou brigava. A Cláudia. O cheiro da Cláudia. O namorado da Cláudia. O concurso e as apostilas. O bigode do seu tio de Ribeirão, garantindo que, se se esforçasse, passaria. O resultado do concurso. O seu casamento com a Patrícia. A viagem para Roma. O calçamento das ruas de Roma. Lucas, no colo, pequeninho. Patrícia gorda. Patrícia indo embora. Coca. A eleição. A ONG. A CPI. Patrícia magra. O namorado da Patrícia. Carol. Carol... O abdômen da Carol. As pernas da Carol. Lucas. O namorado do Lucas.
Em dúvida se tirou, ou não, o shampoo do cabelo, enfia a cabeça de novo em baixo do chuveiro e se irrita: “Parece clipe Hollywood, cacete. Nem em depressão somos livres desses imperialistas filhas-da-puta”. Enquanto se enxuga, ouvindo a mesma música ainda mais alto, não percebe os passos no carpete da salinha.
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A repórter e o zelador estranham que demore tanto para atender o interfone. Ela tinha marcado hora e tudo. Quando chegam no banheiro, ela cobre os olhos diante do corpo nu e flácido, dos miolos, do sangue. E a Rosa Passos insiste: Olho pra mim mesmo, me procuro e não encontro nada. Sou um pobre resto de esperança à beira de uma estrada.




