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setembro 27, 2006
Eleições.
Na falta de coisa melhor, deixo com vocês um artiguete raivoso, que vai para o jornal da famiglia. Sorry.
Difícil escapar do assunto do momento: eleições. Enquanto escrevo, os jornais anunciam que Lula leva no primeiro turno, apesar dos pesares. Também anunciam que nestes dias andou se comparando, num arroubo de imodéstia – ou em mais uma boquirrotice incontrolada – a ninguém menos que Jesus Cristo: também ele tem, entre seus apóstolos, um que o traiu (para ficar na diferença mais engraçadinha, apenas um dos doze apóstolos de Jesus o traiu, não o contrário...).
Mas é duro ver esta eleição – não só porque, aparentemente, a vá ganhar o Lula (e teremos que agüentar mais quatro anos de bobagens vexatórias e mais algumas óbvias, conquanto surpreendentíssimas, traições), mas também porque, se ele não ganhar, quem ganha é o Geraldo.
O Geraldo, meu Deus. Não tenho nada contra ele – fala direitinho, tem ar de bom moço, de bom filho e de bom pai; estudou; diz ser trabalhador e religioso; nunca tomou processo e, até aqui, ninguém o “traiu”. Mas é de um partido irmão-gêmeo-univitelínico do PT.
Sim, não se iluda: estas eleições não têm direita e esquerda. Têm esquerda contra esquerda moderada. Se você não lembra da história (Lula e FHC berrando, de mãos dadas, com a Fafá e o Osmar Santos, pelas Diretas-Já!), pelo menos veja os programas de governo dos dois partidos: encontrarão, lá, os assistencialismos populescos (que, quando eu era moleque, chamavam “coronelismo” e “voto-de-cabresto”), o aumento da arrecadação tributária, o arrocho na fiscalização, a manutenção da taxa de juros em níveis capazes de controlar a inflação... São sinais óbvios do socialismo estatizante, que transfere capital da produção para o governo – não para o povo, em nome de quem levanta todas as bandeiras. A este, só chegam migalhas, porque a educação – único meio seguro de chegar-se à riqueza, em todos os seus sentidos – todos prometem, mas ninguém entrega.
E ao contrário do resto do mundo – que vai, a passos largos, para o capitalismo, competitivo, mas consciente e responsável – ainda estamos atrás do socialismo utópico que alimentava minhas esperanças de pré-adolescente: imagine no possessions, I wonder if you can, no need for greed or hunger, a brotherhood of men...
Ainda acreditamos – é de pasmar – que a mais sangrenta ditadura da América Latina, cujas enfermeiras se prostituem nas esquinas, à frente dos maridos, para buscar os dólares impossíveis, tem a melhor Medicina do mundo, e o mais democrático de todos os líderes.
Ainda acreditamos que os norte-americanos invadiram o Iraque só pelo petróleo, que deviam deixar o Saddam Hussein em paz, e que o engenheiro brasileiro (alguém aí ainda lembra?) raptado pelos audazes terroristas aparecerá, incólume, salvo e barbeado, com um formal pedido de desculpas pelo engano.
Ainda acreditamos no mito do bon sauvage. E, por isso, o elegeremos, voltando dez mil anos no tempo da história da humanidade e provando, definitivamente, que errar é humano, e repetir o erro, burrice.
setembro 11, 2006
À Beira do Caminho.
Enquanto se barbeia, juntando as sobrancelhas consternadas no espelho, ensaia, em meia-voz, grave: “Mortes violentas não deviam acontecer. É lamentável, lamentável que tenhamos chegado a esse ponto. Sofro pelo ser humano. O que ele fez, cento e onze mortos e tudo, foi um ato de intolerância e preconceito. Mas não acho que devesse pagar com a vida. A vida é sagrada, mesmo a de gente como ele.” Isso que ia dizer. “Mas, ah, bem feito, bem feito, bem feito”, sacode com mais força o Mach3, embaixo da torneira aberta, para tirar toda a espuma, com os restos da barba do feriado prolongado. “Mereceu, mereceu!".
No CD player à prova de vapor, põe Rosa Passos, alto mesmo, porque no prédio só tem solteiros e descasados, que se fodam. Vem a chuva, molha o meu rosto e então eu choro tanto. E talvez pela música, ou pela água morna do chuveiro na nuca, alguma coisa, alguma coisa o põe triste, irremediavelmente triste. “À beira de um Rivotril, a esta hora?” Mas a piadinha não faz efeito.
Não sabe bem se chora, porque a água do chuveiro se confunde com seu pranto. E lembra-se, como numa abertura de um filme do Woody Allen, sépia e meio fora de ritmo, as corridas pelas montanhas de Atibaia. O cocker spaniel amarelo. “Simenon”, o nome pula na testa, junto com a sensação de abraçar o cachorro e de suas mordiscadas de brincadeira. Seus pais brigando na mesa, com comida em volta; brigando perto do móveis de madeira maciça da casa de Atibaia; brigando no banheiro de mármore do apartamento em São Paulo, com a porta fechada; sempre brigando. O dia em que ela avisou que ele só voltaria um fim-de-semana sim, outro não. Simenon cego. Os olhos opacos do Simenon. A cara do pai, torta de explicações impossíveis. As suas brigas com a mãe. A fuga de casa. Maconha. A cara da mãe, sem saber se ria, chorava ou brigava. A Cláudia. O cheiro da Cláudia. O namorado da Cláudia. O concurso e as apostilas. O bigode do seu tio de Ribeirão, garantindo que, se se esforçasse, passaria. O resultado do concurso. O seu casamento com a Patrícia. A viagem para Roma. O calçamento das ruas de Roma. Lucas, no colo, pequeninho. Patrícia gorda. Patrícia indo embora. Coca. A eleição. A ONG. A CPI. Patrícia magra. O namorado da Patrícia. Carol. Carol... O abdômen da Carol. As pernas da Carol. Lucas. O namorado do Lucas.
Em dúvida se tirou, ou não, o shampoo do cabelo, enfia a cabeça de novo em baixo do chuveiro e se irrita: “Parece clipe Hollywood, cacete. Nem em depressão somos livres desses imperialistas filhas-da-puta”. Enquanto se enxuga, ouvindo a mesma música ainda mais alto, não percebe os passos no carpete da salinha.
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A repórter e o zelador estranham que demore tanto para atender o interfone. Ela tinha marcado hora e tudo. Quando chegam no banheiro, ela cobre os olhos diante do corpo nu e flácido, dos miolos, do sangue. E a Rosa Passos insiste: Olho pra mim mesmo, me procuro e não encontro nada. Sou um pobre resto de esperança à beira de uma estrada.
setembro 02, 2006
Back soon.
In the middle of something, here, sorry. But I leave you the best company, ever.

Out of the darkness you suddenly appeared
You smiled and I was taken by surprise
I guess I should have seen right through you
But the moon got in my eyes.
I was so thrilled by the love you volunteered,
I gave my heart without a compromise
I guess you don't remember, do you?
When the moon got in my eyes
I thought a kingdom was in sight
That I would have the right to claim
But with the morning's early light
I didn't have a dream to my name
You know the saying that all who love are blind;
It seems that ancient adage still applies.
I guess I should have seen right through you,
But the moon got in my eyes
Click on the moon to get the song. It lasts for only seven days.

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