Confesso: fui, até agora, vítima da feroz e maciça campanha da mídia subversiva e cooptada, escrava de interesses inconfessados. Alinhei-me, inocente útil, ao discurso pré-fabricado, de provável origem gramsciana. Acreditava, mesmo, que tudo não passava de mais uma tentativa colonialista dos ianques, para nos roubar o pouco que temos de identidade cultural. Mas estou me corrigindo a tempo, espero.
Deixem-me explicar.
No fundo, eu tinha mais razões que todo mundo, para ter ódio: além de interromperem meus raros momentos de lazer com apelos e ofertas inúteis; além de agüentá-los tentando me vender um celular novo, abrir uma conta num banco qualquer, ou me fazer render meus pontos de cartão de crédito a uma entidade beneficente desconhecida; além dessa chateação rotineira que já me impunham, eu era – e sou – obrigado a aturá-los nos elevadores do prédio do escritório.
E, como se já não tivessem tagarelado o dia inteiro, andares e andares de universitários que estudam em siglas irreconhecíveis, saem, toda a noite, berrando e rindo pelos corredores do prédio, entupindo os elevadores além da carga, apertando os botões de subir e descer (quando só querem descer), segurando a porta para esperar colegas, sendo, enfim, ainda mais desagradáveis em pessoa que pelo telefone.
Por isso – e dados os meus pendores puristas – eu estava arquicredenciado para abominar o gerundismo, que é a língua oficial desses operadores de telemárquete. E não fazia por menos: dizia, nas rodinhas, que esse povo não passa dos basic-ones nas escolinhas de inglês por aí, e acaba incorporando o present continuous na linguagem, como se fosse uma coisa fina e correta.
Mas estou me arrependendo, ah, como estou me arrependendo.
Noite dessas, saía eu, livro em punho, cenho franzido (eu franzo o cenho como poucos), fingindo que nada escutava. E duas moças entraram no elevador.
- Hoje está sendo difícil – falou a de cabelinhos descoloridos e piercings nasal e na sombrancelha.
- Que está acontecendo? – perguntou a negra com tranças coladas no couro cabeludo e calça pequena o suficiente para fazer saltar dois pãezinhos escuros em cada lado da cintura, sob a blusa curta.
- Eu dizendo para o cidadão que ele tinha crédito aprovado pelo Banco Pum, e ele berrando que eu sou ignorante, que não tenho estudo, que faço uma faculdade ridícula, que sou uma besta, e só por isso aceitava trabalhar com telemárquete – ela disse isso já segurando o choro que sairia mais tarde na cama, com soluços bem fortes, de adolescente. (O nome do banco é fictício).
- E o que você disse?
- Ora, que disse... Disse “nossa conversa pode estar sendo gravada para a sua segurança, senhor. Posso estar ajudando em mais alguma coisa, senhor?”. Aí ele me mandou tomar no... – momento em que a porta do elevador abriu e fomos depositados no térreo.
Pois, querem saber, daquela noite em diante, estou vendo as coisas de outro modo. O gerundismo não é um vício de linguagem – é a suavização de uma súplica. É um pedido de desculpas, em forma de locução verbal. E traz, também, uma mensagem cifrada: tudo aquilo que a pessoa está te dizendo, não passa de uma suposição, um papo de que ela mesma duvida. Nada ali é definitivo – agora você pode estar trocando de operadora e pode estar levando vantagem. Mas quem sabe? Talvez você esteja se ferrando!
No fundo, o gerundismo é a culpa de estar ali, falando aquelas bobagens imensas, sem poder estar estando em outro lugar, sem poder estar fazendo outra coisa. O gerundismo é a consciência dos incômodos a que a vida nos obriga a levar aos outros.
Por isso, mudei: estou agora defendendo o gerundismo, como o último – e mais delicado – sinal de gentileza, nesta terra bruta.




