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Burguesinho, I.

A estréia na casa nova e os exageros dos amigos impõem mais um postinho, rápido. Aos desavisados, informo: tenho uma mania besta de escrever umas estórias de pouquinho em pouquinho, e já ir postando, na medida em que saem, mesmo. Com isso, me obrigo a escrever a estória inteira e prendo, com um vil truque janetecleriano, a sua audiência.
A única coisa que prometo é que um dia, acabo a estória. Como e quando, não revelo, porque nem eu sei. E aceito (melhor, suplico) comentários e palpites.
Tomem a parte um, e leiam por conta e risco. Eu avisei.

Burguesinho, I.

Dona Sônia era uma mulher jovem, sempre bronzeada, cujos óculos, obedientes à moda daqueles dias de 1976, iam muito além do rosto. Dava aulas de História para o ginásio, no colégio de freiras salesianas e, todos diziam, era namorada da Dona Elisabete, que mapeava uma desnorteante Geografia para os meus hormônios pré-adolescentes

As aulas, claro, hipnotizavam – além de todo o charme das ousadas calças ranchero da Dona Sônia, havia aquele mistério todo de namoro e, caramba, de duas mulheres!

Assim boquiaberto, com os poucos meninos e as muitas meninas daquela sala de aula no Belenzinho, ouvi a Dona Sônia dizer que, na Idade Média, as pessoas ou eram nobres, ou clérigos, ou burgueses, ou artesões, ou camponeses.

Mas uma covinha, na bochecha esquerda dela, sorriu, levemente debochada: “vocês seriam todos filhos de burgueses, burguesinhos”.

Era a primeira vez que ouvia “burguesinho”, mas lembro de ter ficado com as orelhas quentes, sangüíneas – “burguesinho, o cacete”, pensei, boca suja que era, até em pensamento.

A descrição que ela fez dos burgueses – bestalhões que não queriam nada com o trabalho, aproveitadores da canga no lombo dos artesãos e do campônios, folgadões, atravessadores do esforço alheio – transformou os seus filhos em gordinhos maricas. Para quem tem onze anos, não há ofensa maior.

Se ela achava que eu era um gordinho maricas, o meu espírito, não: por dentro, era um esguio e mandão aristocrata, de espada afiada e atitudes nobres. Às vezes, também um musculoso e rude camponês, de clava forte e que não fugia à luta.

A Dona Sônia ia ver só. Burguesinho, o cacete.