agosto 10, 2005
Repasto da manhã
Comecei o dia com esta notícia sobre a fome em Niger. A seca devastou a colheita de millet, base da alimentação local. E assim a seca devasta a população também. Não pude deixar de pensar no absurdo deste mundo, em que o cereal orgânico na prateleira de produtos naturais do meu supermercado mostra orgulhosamente o "tradicional millet, grão arcaico, alimento de povos africanos", misturado a nozes, frutas secas, e outros grãos "arcaicos e tradicionais" como a quinoa sul-americana. Parece até brincadeira, esta abundância conspícua do exotismo, enquanto uma atual cultura "arcaica" fenece à mercê da seca.
Mas ainda não consegui decidir se isso é mais ou menos irônico do que comparar as doenças alimentares das culturas superdesenvolvidas, em que as pessoas ora se entopem de comida supérflua, ora se matam voluntariamente de fome (obesidade, bulimia, anorexia), com a doença alimentar de um país em que as pessoas, sem o que comer, morrem de desnutrição.
Posted by daniela at 03:57 PM | Comments (5)
agosto 07, 2005
Cachorro?
Não entendam errado. Eu amo cachorros. Já tive, aliás. Quando vejo um cãozinho na rua, paro e me derreto. Mas outro dia passou um pit-bull levando seu dono para passear e eu, além de trocar de calçada, resmunguei entre dentes. Meu namorado, surpreso, quis saber de onde vinha minha aversão súbita: “Ué, mas você não adora cachorro”???
Sim, eu adoro cachorro.
Só que ainda não consegui encontrar o cachorro no pit-bull. Vejo uns olhinhos baços perdidos no meio da cabeçorra em vez do olhar vivaz e comunicativo de, por exemplo, labradores, setters, jack russell terriers, poodles, pastores e pequineses. O pit-bull é só testa e bocarra. Vejo de viés os lábios semi-abertos e a maxila poderosa. Li que a força da mordida de um pit-bull pode chegar a arrancar um membro humano. Li também que, historicamente, os pit-bulls foram selecionados por seus criadores para gerar animais agressivos e iracundos. A seleção artificial nos canis eliminou os animais de temperamento dócil. De propósito. Só que o preço deste imbatível cão-de-briga e suposto cão-de-guarda foi um animal que, em última instância, é incontrolável. Mesmo com todas as camadas de treino e domesticação, o pit-bull que resultou desse processo é, no fundo, imprevisível, indomável, e segue um instinto só: atacar.
Vocês podem então dizer, com razão, que a minha pequenina pinscher era assim também: incontrolável, irritadiça, não só latia como rosnava e mordia. Mas ela pesava cinco quilos e sua boquinha era do tamanho de uma noz. Já o pit-bull que passou ao meu lado, se quisesse, sairia fácil do controle da mocinha que segurava, casualmente, a ponta da coleira.
Então eu respondi ao meu namorado que não conseguia gostar de pit-bull porque para mim, depois de tudo o que li a respeito da raça (incluídas as estatísticas de acidentes e ataques), o pit-bull não é um cachorro como os outros. O pit-bull é um bicho à parte.
Mas, se as pessoas insistem em ter algo potencialmente perigoso, devem ao menos agir de acordo e ser responsáveis. Quem tem arma em casa deve deixar trancada. Quem usa bujão de gás tem de checar se tem vazamento e armazenar em local ventilado. Quem tem cobra deixa dentro do aquário. Até leão de circo tem de viver enjaulado. Então por que é tão difícil para um dono de pit-bull colocar uma focinheira e um arreio decente?
Posted by daniela at 06:25 PM | Comments (25)
Esgoto a céu aberto
Das calçadas subia, vaporoso, o cheiro de fezes e urina. Eu tinha de andar olhando para o chão, driblando os dejetos numerosos. Eu não estava numa favela ainda não-urbanizada. Também não era uma cidade destruída, sem infra-estrutura e saneamento.
Eu estava na crista da zona sul paulistana, um bairro de classe média alta cheio de barzinhos yuppies e lojas patricinhas das quais, quando se abrem as portas de vidro, sai um ventinho frio e adocicado de ar-condicionado.
Mas os moradores dos edifícios de três ou quatro dormitórios (sendo duas suítes), que passeiam garbosos em suas picapes e se refestelam nos novos cafés transados do bairro – comendo, talvez, um sanduíche de presunto de parma ou uma salada com queijo de cabra – acham por bem usar as ruas como privada coletiva.
É um despudor! As calças abaixadas, acocoram-se em plena luz do dia. Alguns ainda procuram, tímidos, uma esquina de muro ou um canteirinho com terra exposta. Mas a maioria não liga e faz onde dá vontade, no meio da passagem, pavimentando as calçadas com seus excrementos. E deixam no chão público as manchas de xixi e os montinhos de fezes.
É quase isso. Não é só porque as fezes são de cachorro que são perdoáveis. Esses cães não são vira-latas sem dono. São criados, treinados e conduzidos por seus donos ao passeio público. Tem lei para isso: recolha as fezes do seu cachorro. Quem decide ter animal de estimação na cidade tem de entender que, junto com as demais obrigações como veterinário, ração, banho e tosa, há a obrigação de catar a caca. Mesmo aqueles que têm jardim próprio bem grande sabem que é preciso limpar o cocô do cachorro, porque ninguém quer sujar o sapato no meio do churrasco de domingo. Não vou nem dizer que é questão de respeito ao próximo, porque seria esperar demais das pessoas. Mas é, no mínimo, questão de proteger a própria higiene. Quem quer morar num mar de cocô, bactérias e verminoses?
Mas aí passa uma garota puxada por seu pit-bull (céus, quem é que tem pit-bull em apartamento???) e eu tenho de calar a boca.
Posted by daniela at 04:34 PM | Comments (4)