o sonho que tive essa noite

julho 23, 2008

Depois de escrever e publicar um post qualquer, fechei o firefox, sem clicar em logout para sair da plataforma do movabletype onde este blog é gerido, e desliguei o computador. Tenho mesmo o costume de fazer isso, porque toda vez que eu fecho o firefox, ele me pergunta se eu quero apagar "os dados pessoais" (cookies, cache, histórico etc.), e eu sempre apago.

Dessa vez, no sonho, entretanto, de alguma maneira, não funcionou; e quando abri este blog mais tarde, havia uma daquelas pequenas biografias de grandes brasileiros/compositores/escritores/estrangeiros/etc. que Ruy Goiaba escreve (não lembro quem era o biografado), um post que terminava (isso eu lembro) com um conselho para que eu tivesse mais cautela quando saísse do movabletype. O que diria José?

Era assim que um de nossos antepassados descrevia sua experiência com um computador nos idos de 1982:

When I sit down to write a letter or start the first draft of an article, I simply type on the keyboard and the words appear on the screen. For six months, I found it awkward to compose first drafts on the computer. Now I can hardly do it any other way. It is faster to type this way than with a normal typewriter, because you don't need to stop at the end of the line for a carriage return (the computer automatically "wraps" the words onto the next line when you reach the right-hand margin), and you never come to the end of the page, because the material on the screen keeps sliding up to make room for each new line. It is also more satisfying to the soul, because each maimed and misconceived passage can be made to vanish instantly, by the word or by the paragraph, leaving a pristine green field on which to make the next attempt.

F. W. Taylor (1856-1915), padroeiro das atendentes de telemarketing

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"In the past the man has been first; in the future the system must be first."

julho 21, 2008

Perguntaram a Christopher Hitchens se ele aceitaria se submeter ao tal do waterboarding, que, segundo o saber enciclopédico, consiste na seguinte seqüência de ações: "a pessoa é deitada de costas e imobilizada, com a cabeça inclinada para trás, e água é lançada sobre a face e para dentro das vias respiratórias". Hitchens aceitou e depois escreveu a respeito.

You may have read by now the official lie about this treatment, which is that it “simulates” the feeling of drowning. This is not the case. You feel that you are drowning because you are drowning—or, rather, being drowned, albeit slowly and under controlled conditions and at the mercy (or otherwise) of those who are applying the pressure. The “board” is the instrument, not the method. You are not being boarded. You are being watered. This was very rapidly brought home to me when, on top of the hood, which still admitted a few flashes of random and worrying strobe light to my vision, three layers of enveloping towel were added. In this pregnant darkness, head downward, I waited for a while until I abruptly felt a slow cascade of water going up my nose. Determined to resist if only for the honor of my navy ancestors who had so often been in peril on the sea, I held my breath for a while and then had to exhale and—as you might expect—inhale in turn. The inhalation brought the damp cloths tight against my nostrils, as if a huge, wet paw had been suddenly and annihilatingly clamped over my face. Unable to determine whether I was breathing in or out, and flooded more with sheer panic than with mere water, I triggered the pre-arranged signal and felt the unbelievable relief of being pulled upright and having the soaking and stifling layers pulled off me. I find I don’t want to tell you how little time I lasted.

Um vídeo da coisa está aqui.

meditem ok

julho 19, 2008

Gabi foi assistir Nome Próprio,

de Murilo Salles, com a Leandra Leal, um filme chato sobre gente alternativa-descolada da rua Augusta. Mas foi bom porque a gente riu bastante, afinal nós estávamos ali no Unibanco da Augusta assistindo um filme sobre os pós-adolescentes da Augusta, e a protagonista do filme é mala e deprê do tipo que dá vontade de bater, e fica pelada o filme inteiro, e não trabalha nunca, e dá pra todo mundo indiscriminadamente, e inclusive vomita na câmera durante uma cena, em repetidas golfadas que é para não restar nenhuma dúvida de que ela está ali expelindo coisa. Se eu tivesse um filho daquele jeito Augusta, eu não sei, não.

O filme seria bom se a protagonista, que se diz escritora, tivesse talento literário, mas somos obrigados a agüentar versos clichês como "Eu sofro de nada e de ninguém". Aliás, fiquei constrangida com o fato de ser blogueira, pois a história é inspirada na vida de uma blogueira chamada Clarah Averbuck.

Ou seja, jamais assistirei. E ser blogueiro é mesmo constrangedor porque o Marquito também tem. A melhor frase do post, todavia, é esta:

Ai, gente, vai pagar as contas e sair pra trabalhar antes do sol nascer, vai.

Victor Fasano entendeu a internet

E só se fala no @vitorfasano. Entrevistaram o homenageado e a homenagem aqui. Se você não presta atenção, fica difícil identificar o original.

180px-Fasanovictor13122006.jpg

E esse bigode? É fake? É original?

Seja como for, diga o que quiser: só não diga que o Excelentíssimo Senhor Secretário Especial de Promoção e Defesa dos Animais do Município do Rio de Janeiro-RJ não entendeu a internet:

FOLHA - Você pretende processá-lo?

FASANO - Você sabe muito bem que a nossa legislação é muito falha em relação à internet. Não existe uma legislação específica. Então, o que adianta eu processar e não dar em nada, eu perder meu tempo? A gente sabe que é tudo improvável, porque não existe legislação.

FOLHA - Corre-se o risco de acontecer algo como no caso da Daniella Cicarelli, quando bloquearam o YouTube inteiro.

FASANO - Bloquearam o YouTube, mas apareceu na TV, em outros sites. A internet é tão poderosa que você não a controla. Como eu sei disso, não vou me preocupar, senão vou ficar doente. Só vou fingir que não está acontecendo. As pessoas cultas sabem que isso é passível de ser falso. E é o que está acontecendo, é falso. Agora, como eu interrompo isso se a legislação não prevê que eu consiga interromper? A própria internet é mais forte do que qualquer legislação que venha a existir. Sempre existirá uma brecha na internet. Alguém copia e passa adiante, e isso vira uma montanha de neve que você não controla.

julho 18, 2008

Protele com elegância. Protele com Instapaper. [vlw, celroamtrao]

Nikko Bushidô, quem é você?

Depois de Pietro Nassetti, é a vez de Nikko Bushidô:

[...] Arte da Guerra: Os Treze Capítulos Originais, lançada em tradução e adaptação de Nikko Bushidô, é um embuste desde o frontispício até o último capítulo. O livro, de 2006, traz na capa três afirmações bombásticas: "Tradução do chinês", "Campeão de vendas", "Edição completa". Eis uma mentira: "Tradução do chinês". A versão Jardim dos Livros é tradução do chinês feita através da língua de Camões mesmo.

Nikko Bushidô promoveu um mega-arrastão nas versões brasileiras de Sunzi Bingfa. Simplesmente surrupiou a produção intelectual de José Sanz (Record, 1983), Mirian Paglia Costa e Caio Fernando Abreu (Cultura, 1994), Sueli Barros Cassal (L&PM, 2000) e Ana Aguiar Cotrim (Martins Fontes, 2002). Não contente, Bushidô arrebanhou também o prodigioso editor Martin Claret e seu prestativo colaborador Pietro Nassetti, tradutor de grandes habilidades, como se verá adiante. E mais: reproduziu até o erro de atribuir a Sunzi uma frase de Santo Agostinho - "O objetivo das guerras é a paz" -, numa demonstração prática da técnica Lavoisier de tradução.

Tentou-se falar com o editor Claudio Varela para ouvir sua versão dos fatos e, principalmente, indagar-lhe se Nikko Bushidô seria uma pessoa, uma instituição ou um ectoplasma. Em vão.

cinema escrito (II)

Já que estamos falando de cinema escrito, deixa eu apontar as duas resenhas mais legais que vi no mês passado. Essa de Hulk, que saiu no Guardian; e essa do novo filme de M. Night Shyamalan, que saiu na The New Republic. As duas são negativas.

Na primeira, o resenhista incorpora um Hulk:

Same old story. Superhero movie give superhero mirror-image antagonist. Like in Spider-Man 3. Idea rubbish in Spider-Man 3. Idea rubbish here. Hulk versus humanity important thing. Cancelled out here. Basic problem ... critic not believe Hulk angry. Hulk just roar. It not look convincing. Not truly seem angry. Critic think about this. Critic decide why. It because Hulk not swear. Hulk just say: "Hulk. Smash" etc. If Hulk shout C-word ... different matter. Then Hulk look angry. Sound angry. Not here. Hulk genteel.

Critic remember Ang Lee version. Ang Lee version slagged off. Yet rubbish new Hulk film make that look like Citizen Kane. Critic exit cinema miffed. Film take away two hours of critic's life. Critic not get time back. Ever. Rarrrrr.

Na segunda, o resenhista oferece "a dozen and a half of the most mind-bendingly ridiculous elements of the film, which will enable you to marvel at its anti-genius without sacrificing (and I don't use that term lightly) 90 minutes of your life".

"Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério quando fica velho", disse Nelson Rodrigues em entrevista a Otto Lara Resende (aquele que não disse que o mineiro só é solidário no câncer).

julho 17, 2008

Concordo com claudino: é o novo Chico Science.

Andar de elevador virou uma outra coisa depois que vi este vídeo de um cara que ficou preso dentro de um por quase dois dias. Um vídeo que todo mundo já viu, eu sei.

Mas e a matéria que ele acompanhava? Todo mundo já leu?

João Donato: "Eu não agüento mais falar de bossa nova."

julho 16, 2008

Uma entrevista com o vencedor do Pulitzer 2008, o autor do melhor livro que li em 2007. [vlw, Marcus!]

julho 15, 2008

Presumo que você esteja sentado. Está? Se não, por favor, sente-se. Agora levante seu pé direito e faça-o descrever círculos, no sentido horário. Isso. Assim. Agora, mantendo o movimento do pé, tente desenhar um 6 com sua mão direita.

Não se preocupe. Você não está com problema algum. Comigo aconteceu a mesma coisa. [via]

gold has always been more scarce than dirt

julho 14, 2008

Arte, sem aspas, é o tema dessa entrevista com Elton Mesquita, cujo blog faz falta.

5. Has art become just a new, inventive form of product placement due to rampant capitalism?

The marketplace is an unavoidable aspect of human life, and m[u]st be dealt with without idealization. Jesus matter-of-factly said "Render to Caesar what is Caesar's and to God what is God's". All the Old Masters were professionals who delivered what their buyers demanded for a good price. The game didn't change, it just became more aggressive and conspicuous. It's an old image that genius is a small light in the dark serving as a beacon for akin souls, and that also didn't change. Gold has always been more scarce than dirt, and so it's only natural that a large part of the art market runs on shams, scams and marketing spam. But the smaller and truer part will hang in there time enough to carry the fire to the next generations. As Emerson puts it somewhere: "the Sun shines to-day also".

Dividida em três partes: parte 1, parte 2 e parte 3. Coisas bacanas foram ditas, mesmo que ele pareça ter desistido de responder a partir da 13ª pergunta.

Alguém aí tem um link pralgum lugar onde se possa ler a versão completa desse texto de Zadie Smith que saiu na Believer de junho? Em troca, eu dou esse outro, em que ela fala de Kafka.

alguém precisa dizer isso

julho 13, 2008

EU NÃO AGUENTO MAIS ESSE MACONHEIRO DO FANTÁSTICO!

o concerto de João Gilberto em Salvador (III)

julho 12, 2008

Agora é hora de tratar da batida de João. Para tanto, convoco um dos principais observadores e estudiosos do modoJoãoGilberto de tocar: o professor Aderbal Duarte. Suspeito que ele ficará muito feliz de poder dizer algumas palavras aqui no blog, ainda que à sua revelia. (O leitor não ficaria? Eu sempre fico).

Também suspeito que o professor, antes de começar a falar, iria apreciar se eu indicasse a leitura deste artigo, que eu já li, mas vocês ainda não—então deixa eu fazer uma breve apresentação. Convidado pelo professor Lucas Robatto a escrever um texto sobre João Gilberto para a Revista da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Aderbal Duarte considerou que 3500 palavras era pouco espaço e resolveu que no lugar do artigo ofereceria "informações e orientações" para que Robatto "pudesse elaborar um texto mais adequado aos objetivos e ao público deste periódico". Li isso há alguns anos, numa época em que a minha obsessão por João Gilberto era ainda maior do que é hoje, uma época em que eu quase comprei o livro de Walter Garcia e quase me matriculei num conservatório para aprender a tocar violão. Uma época em que eu me permitia sonhar com essas coisas, uma época romântica, uma época distante, há quase três anos.

Mas deixemos meu saudosismo; voltemos ao artigo. Embora escrito por Robatto, podemos considerá-lo uma transcrição elegante de uma palestra de Aderbal. Afinal, é o próprio autor do texto que anuncia, logo de cara: "Apesar de estar aqui emprestando a minha 'voz', espero estar 'cantando' a 'canção' de Aderbal, uma 'canção' sobre a voz e o violão de João". Se não me engano, foi lendo esse artigo que pude começar a compreender direito o tamanho de João Gilberto. Sabe aquilo que Caetano Veloso falou na Folha essa semana, de João ser o samba total? No artigo, Robatto diz coisa semelhante: "João incorpora tudo". Eu recomendo imenso a leitura. Toma aqui o link de novo, para a eventualidade de você (sempre distraído) ainda não ter clicado.

E finalmente, depois que todos nós tivermos lido o artigo, o professor Aderbal ilustrará muito gentilmente algumas das idéias ali contidas, tocando seu violão. Ele será muito didático e simpático ao fazê-lo. Só peço que vocês desconsiderem a baixa qualidade das imagens e a propaganda do jornal A Tarde, que não é um de nossos patrocinadores. Serão dez vídeos no youtube:

[mais]

a coisa mais estranha que vi hoje é a seguinte

julho 10, 2008

Diz-se que em 1994, no Caribe (acho), houve uma tal Copa Shell, um campeonato de regrinha bizarra segundo a qual gol de ouro na prorrogação equivalia a vitória por dois a zero.

Entendeu? Gol de ouro = 2x0.

Daí Barbados e Granada estão jogando, e Barbados precisa vencer por dois gols de diferença pra passar pra próxima fase (a final, eu acho), e Barbados, vejam só, está ganhando por dois a zero e portanto se classificando. Só que aí Granada vai lá e faz um gol, e agora quem está se classificando é Granada. Barbados tenta, tenta, tenta fazer mais um gol—e nada. Faltando três minutos pro jogo acabar, Barbados lembra da regra "gol de ouro = vitória por dois a zero" e resolve que o jogo agora tem que ir pra prorrogação de qualquer jeito. Um barbadense (?), então, carrega a bola rumo a própria meta, troca uns passes toscos com o goleiro e aí dá um bico na bola e faz o gol contra mais estranho que eu já vi. Os granadianos (?) não entendem nada, e quando entendem, o jogo pum, acaba. Na prorrogação, Barbados faz o gol de ouro que vale por dois e se classifica.

É sério. Há imagens:

(via)

o concerto de João Gilberto em Salvador (II)

junho 25, 2008

Mas enquanto João Gilberto não vem, vamos retornar por um instante a 1997 e lembrar das duas ou três cerimônias de formatura que assistimos naquele ano. Quero que você tente sentir o desconforto habitual, a vontade de não estar ali; veja como o auditório está lotado, cornetas soando à medida que se anunciam os nomes dos formandos. À primeira vista, nada difere do que se vê nas formaturas de hoje. Mas preste atenção; repare bem.

E olha lá.

Olha lá a quantidade de jovens bacharéis usando gravatas com estampas de personagens Looney Tunes: Patolino, Pernalonga, Marvin, o Marciano. São muitos, e ainda que qualquer álbum de fotos da época os mostre felizes, sorrindo com suas gravatinhas, parecem todos obviamente ridículos agora que ninguém mais usa o adereço infame, abandonado porque houve um ponto na História em que as pessoas subitamente não quiseram mais ser vistas e tratadas como um espécime pertencente a 1997—o que possivelmente ocorreu já em 1º/01/98.

tiahoneu.jpg

Essa gravata, a gravata de personagem Looney Tunes, é um excelente símbolo do que aqui vou chamar de Ironia Contemporânea, só que antes de avançar mais me parece útil dar logo minha definição do que vem a ser isso. Entendo que a Ironia Contemporânea é um jogo de linguagem cujos mecanismos podem ser facilmente compreendidos se estivermos de boa vontade, e peço licença para, a partir do próximo parágrafo, me tornar um pouco óbvio aos olhos de alguns de vocês.

Vejo a coisa estruturada em duas camadas, cada uma portando um fragmento da mensagem. Na primeira camada vem a literalidade do que se diz, e na segunda, o que se quer realmente dizer. Essas duas coisas—aquilo que literalmente se diz e aquilo que se quer realmente dizer—não podem coincidir. Antes, é preciso que exista um descompasso entre elas, a primeira camada criando uma expectativa a ser frustrada pela segunda. Digo uma coisa, mas o que eu realmente quero dizer é uma outra. A fim de que haja ironia, a relação entre as tais duas camadas não precisa ser contraditória ou paradoxal, necessariamente. Bastam a descoincidência e, principalmente, a intenção de criar essa descoincidência. Não existe ironia acidental, e eu faço questão de dizer isso porque, em minha experiência, tenho visto esse último aspecto ser um tanto desprezado. Tenho visto muita gente boa chamar de irônicas coisas que passam longe da ironia. Confunde-se ironia com paradoxo, com mera contradição, com aquilo que não passa de coincidência infeliz; a canção Ironic da canadense Alanis Morrissette parece ser o melhor exemplo disso. Nela, não sei se vocês se lembram, se enumeram situações que só possuem em comum o fato de absolutamente não serem irônicas—e aqui convém que eu me antecipe e diga que tampouco é irônico o fato de uma música que se chama Ironic não trazer nenhum exemplo de ironia. Isso é apenas um paradoxo. (Aos interessados, digo que vi uma exposição decente da diferença entre essas coisas ser feita por uma Zoe Williams, num artigo para o Guardian).

Retomemos agora o exemplo da gravata Looney Tunes para ver por que ela me parece ser um excelente símbolo de Ironia Contemporânea. Note que ali o primeiro nível está representado pelo objeto que lembra uma gravata: os sujeitos que em 1997 adornavam seu pescoço com aquilo comunicavam um aparente assentimento às regras de etiqueta que recomendam o uso de gravatas numa formatura. Na figura do Patolino, por outro lado, vemos o segundo nível, aquele em que os indivíduos expressavam sua verdadeira opinião sobre as ditas regras: numa cerimônia formal em que se pedem gravatas, uso uma que, por não ser formal, tampouco é gravata.

Fossem só essas características, teria razão quem dissesse que a Ironia Contemporânea não é assim tão diferente da velha e boa Ironia que nos acompanha desde os gregos. Mas há um traço distintivo que—creio eu—aconselha a tentativa de subclassificação, porque diz respeito com o desiderato do jogo. Enquanto Sócrates, fingindo ignorância etc., valia-se da ironia para levar seus discípulos a roçar a verdade, o que eu chamo de Ironia Contemporânea é o fenômeno acima descrito servindo a um propósito inteiramente gratuito. Subjacente ao jogo de linguagem, não se revela tomada de posição alguma. A Ironia Contemporânea é a ironia pela ironia. Quem quer que se dedique a observá-la mais detidamente verá que parcela expressiva dos que topam jogar seu jogo dá a impressão de só o fazer para participar ao resto da humanidade sua competência nele; é como se fazer uma ironia fosse o equivalente de hoje para a capacidade que, segundo Larkin, todo homem educado tinha para compor um verso e tocar alaúde no séc. XVII—e suponho que essa mania de ser irônico apenas para dizer que é capaz de ser irônico surgiu porque, nalgum ponto da segunda metade do séc. XX, ficou decretado que a coolness de um sujeito era diretamente proporcional ao quão habilidoso ele era ao fingir que gostava de uma coisa da qual ele na verdade não gostava tanto assim. É irônico? Ah, então é legal.

Meu argumento, embora meio silogístico, não me parece tão banal; caso contrário, podem ter certeza, o post seria menor. Penso que, como ironia virou sinônimo de cool, e como todos querem ser cool o tempo todo, todos passaram a ser irônicos o tempo todo. Creio que nenhum de nós estaria sendo leviano se dissesse que muitos dos sujeitos que usavam gravatas Looney Tunes em 1997, além de não estarem totalmente cientes dos níveis de mensagem que seu comportamento expressava, tampouco ligavam a mínima pra isso: se usavam aquelas gravatas, faziam-no principalmente porque queriam parecer ishpertos, descolados; quiçá nem sabiam que estavam sendo irônicos. Eles usavam aquelas gravatas pelos mesmos motivos que levam a que eu e alguns de vocês sejamos gratuitamente irônicos hoje; porque, por diversas razões, algumas das quais David Foster Wallace relacionou à televisão, o poderoso mantra “irônico, ergo cool”, a despeito do que tem de pedestre, se espraiou, virótico, por todos os lugares e está em toda parte.

Daí essa overdose de ironia gratuita, frívola e estéril. O exagero é tanto que, ao tempo em que eu escrevia este post, o google levava 0,09 segundos para me apontar 52.900 resultados na busca por “unironically”. Acredito que essa é a mais eloqüente demonstração do argumento que estou defendendo: só pode haver tanta necessidade de deixar claro que algo está sendo dito unironically porque, de alguma maneira, a ironia, de exceção, passou a regra. Reconheço, porém, a possibilidade de isso não ser tão presente na vida de alguns de vocês. É possível que isso seja coisa de gente que tem mais ou menos minha idade. Lembro que, ao tratar do que ele chamou de “culto da tosquice”, Pedro Sette Câmara escreveu:

[...] muitas vezes, ao ter contato com a geração dos nascidos nos anos 80, tenho a impressão de que a busca pela tosquice se tornou a norma. A quantidade de referências a coisas toscas que meus infantes amigos fazem é imensa, e o entusiasmo com que falam daquilo que na verdade desprezam, além de me dar a sensação de um abismo geracional, mostra, pelo distanciamento de si mesmos, o quanto de pose e cálculo existe nessa atitude. Pessoas que tiveram uma educação superior à média optam pela vulgaridade ao falar, escrever e consumir.

No que foi parcialmente corrigido por Alexandre Soares Silva, que disse que

[...] é verdade que não é fácil encontrar um homem de 45 anos, digamos, gostando de filmes ruins porque são ruins, falando que nem o Misto Eleazar e tal. É de fato um problema de geração, mas essa geração inclui a do Pedro: conheço muita gente de trinta e tantos que é assim.

Pedro disse não ter idéia das causas disso, e eu também não tenho; mas meu palpite é o de que seus infantes amigos estão apenas sendo porta-vozes da Ironia Contemporânea. Permitem-se fazer referência ao que é vulgar porque sabem que, devido ao contexto, a segunda camada, expressa na circunstância de haverem tido uma educação superior à média, não permite que corram o risco de serem tidos como gente vulgar. Escrevem como Misto Eleazar tomando o cuidado de ao mesmo tempo deixar claro que sabem a diferença entre uma redondilha menor e uma redondilha maior, a fim de que todos possam saber que eles estão sendo irônicos quando perguntam “como fas/”. Tudo o que eles querem é mostrar uns aos outros que são legais, que estão por dentro da brincadeira, e hoje a maneira mais eficaz de fazer isso é ser gratuitamente irônico. Digo isso sem esquecer que nasci nos anos 80 e sabendo que faço isso às vezes.

Mas também sei que ser irônico o tempo todo cansa; e às vezes me vem a desconfiança de que, no fundo, ironia gratuita em tempo integral pode ser apenas mais uma expressão de cinismo. Julgo, aliás, que o eventual interessado em fazer uma análise séria da Ironia Contemporânea—uma investigação que, a par de identificá-la e mostrar como ela funciona, se ocupasse de suas causas e dos motivos que levaram a essa sua quase onipresença; uma investigação que eu confesso não reunir condições para fazer—teria que testar a hipótese de que existe uma correlação entre ela e um tipo de cinismo que, em minha opinião, é hoje tão ubíquo quanto ela. Estou falando aqui deste cinismo covarde de que a gente lança mão quando não quer arcar com o ônus de abraçar uma causa, defender uma posição. Todo cínico sabe que a melhor maneira de pôr as coisas que diz fora do alcance de qualquer crítica é não revelar aquilo em que ele realmente crê. O cínico acha que é mais esperto que os outros quando faz seus comentários aparentando não expor senão seu próprio cinismo. Busca, com isso, escapar da crítica a que está sujeito todo aquele que aspira a ser tratado como adulto, a crítica na qual o cínico, em última instância, dando de ombros, sempre pode dizer não estar interessado. Mas além de cinismo—diria eu se tivesse alguma autoridade moral sobre vocês—, é bom que a gente saiba que os que assim agem também podem acabar revelando preguiça ou covardia. Arriscam jamais serem levados a sério; é o preço que se paga.

E é por passar boa parte do meu tempo ou sendo gratuitamente irônico, ou pensando nessas coisas todas, que eu, toda vez que quero tomar fôlego, descansar do jogo, experimentar um pouco de honestidade, me volto para João Gilberto, antônimo da ironia, sujeito que há décadas canta músicas que fizeram sucesso décadas antes de ele começar a cantar. Embora tenha gravado uma música de Lobão, episódio para o qual ainda não encontrei explicação, João Gilberto não faz concessões à Ironia Contemporânea; é a única pessoa que eu vejo cantar “quém-quém-quém” e emprestar sinceridade a cada grasno. É bem possível que, quando ele apareceu, cantando baixinho canções que faziam parte do repertório de Orlando Silva, muitos tenham achado que ele estava sendo irônico; no entanto, meus amigos, lá se vão cinqüenta anos, e ele continua cantando “Aos Pés da Cruz” do mesmo jeito; e se isso não prova que aquela gente estava errada, eu me chamo Farnésio Dutra e Silva, muito prazer. Diferentemente daquele seu fã dileto que cede à tentação de comunicar que também sabe jogar o jogo da Ironia Contemporânea ao incluir o funk do tapinha em seus shows, João Gilberto, no dia 05 de setembro de 2008, reclamará de algum ventinho no palco do Teatro Castro Alves, onde cantará sambas da década de 40 para uma platéia que, muito provavelmente, só poderia ser exposta àquele tipo de música, num contexto não-irônico, naquele lugar, àquela hora, e será a pessoa mais sincera num raio que vai do Campo Grande à Ribeira, enquanto eu, testemunha, encontrando pausa no meio da gritaria irônica, segurando a tua mão, meu amor, pensarei, mais feliz do que jamais estive, no post que escrevi meses antes, aquele post que você disse que eu devia terminar, aquele, o que encerrava com a frase “João Gilberto é refrigério” e ah, meu Deus, como eu estava certo.

junho 23, 2008

Creia em mim: é bombagarai este perfil-elogio-póstumo de JPP que saiu na piauí deste mês. Não é que os putos botaram o texto atrás de uma pay-wall? Via cache do google, ainda dá pra ler; pena que daqui a uns dias some. Mas a internet é tinhosa. Não diga a ninguém que na extended entry ;>) heheh

[mais]

atualidades

junho 08, 2008

gabriela entrevista tiago a.

Gabriela diz:
começando pelo cqc

Tiago diz:
ninguém vai lembrar do cqc daqui a cinco anos. mas vc é quem manda

Gabriela diz:
eu explico entao o q é cqc?

Tiago diz:
boa!

Gabriela diz:
cqc, versão nacional de um programa de sucesso na espanha, que combinar jornalismo e humor, apresentado por marcelo taz na band. como vc avalia a tentativa do cqc? me diga uma coisa, vc o assiste com muita benevolencia? cobrando menos de humor inteligente do q se estivesse assistindo um bom programa de humor dos eua? seja sincero

Tiago diz:
vou partir do pressuposto de que você não está sendo irônica ao fazer essa pergunta apesar de todos os indícios indicarem o contrário. assisto cqc, sim. acho que eles são involuntariamente engraçados. tipo: quando a produtora deles reclamou da comparação com o pânico na folha de são paulo.

Gabriela diz:
hum

Tiago diz:
ela disse que não era pra fazerem essa comparação. que o cqc tava mais pra michael moore. eu chorei, nessa hora. foi a melhor piada de todas. o rapaz que faz o repórter inexperiente, cujo nome obviamente desconheço, é o melhor de todos eles. digamos que mesmo quando eu não assisto o cqc, deixo a tv ligada pra incentivar. mas o que me impressiona de verdade é como eles conseguem ficar tanto tempo sem parar para os comerciais; parece futebol.

Gabriela diz:
eu realmente nao estava sendo ironica, porque assim, tv aberta é tao ruim, q qq coisinha razoável vai se destacar. mas e o obama, vc é "go, obama", indiferente, acha q ele é um collor dos eua ou está muito temeroso do seu poder hipnótico? ou nda?

Tiago diz:
eu não consigo deixar de me espantar com o fato de que pessoas que não podem fazer nada a respeito realmente acompanhem a eleição do candidato à eleição dos estados unidos. eu fico besta com essas coisas. eu só vou me interessar por essa parte do jornal quando anunciarem o vencedor final, e mesmo assim só pra não ficar totalmente por fora. porque vai que eu participo de um programa de perguntas e respostas valendo UM MILHÃO DE REAIS e eles me perguntam quem é o presidente dos states, né

Gabriela diz:
hum, mas vc viu a capa da esquire latina deste mes, com o obama e uma frase da sua musa scarlett johansson: "mi corazon pertence a obama" ?

Tiago diz:
scarlett tem opiniões políticas equivocadas. é isso que a torna ainda mais charmosa. dá vontade de pegar no colo e dizer, minha filha, veja bem

Gabriela diz:
e a reforma ortografica, te interessa? nós, q aprendemos a usar o trema seremos igualados aos que nunca aprenderam e q agora nao precisarao mais aprender. o q vc acha disso? é niuma?

Tiago diz:
você não acha curioso que essa pergunta do trema venha sem vários acentos?

Gabriela diz:
ahn...

Tiago diz:
não precisa responder. foi uma pergunta retórica. acho que a resposta está contida aí, na sua pergunta. só quem vai precisar se preocupar com isso é vestibulando e revisor. as pessoas normais vão continuar à margem da reforma ortografica.

Gabriela diz:
hum

Tiago diz:
não vai demorar pra surgirem posts engraçadinhos: reforma ortrogafica como fas/
alguma coisa me diz que a posteridade não vai se interessar por essa nossa entrevista.

Gabriela diz:
e p q se interessaria, né. a nao ser q façamos alguma coisa

Tiago diz:
vc tem seu livro, né

Gabriela diz:
hahaha

Tiago diz:
e meu sonho sempre foi conseguir ser engraçado e charmoso numa entrevista. não estou conseguindo nem uma coisa nem outra. estou envergonhando minha futura prole, receio.

Gabriela diz:
vc pode fazer como o jp coutinho. sua propria entrevista. um FAQ. kkkk aquilo foi horrivel, embora tenha sido interessante

Tiago diz:
eu nem vi. me senti superior, agora

Gabriela diz:
rapaz, http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u360687.shtml

Tiago diz:
[entrevistadora adormece no meio da entr-] usei sua técnica da leitura em 30s. me pareceu o de sempre. auto-entrevista=inepta tentativa desesperada de parecer cool. acomete geralmente quem não pensou em nada melhor para preencher o espaço a que tem direito

Gabriela diz:
hahaha

Tiago diz:
muito comum em blogueiros e cronistas

Gabriela diz:
né?
a entrevistadora precisa lavar a louça, gato

Tiago diz:
beleza, gabis, foi divertido

Gabriela diz:
depois retomamos, beijão

junho 06, 2008

Olhaí, David. Tava demorando:

Blogueiros americanos=personagens de Dickens.

[mais]

junho 02, 2008

Tomaqui um conto inédito de Volodya, publicado pela primeira vez por volta de 1924, на русском. Nosso herói tinha uns 24, 25 anos.

Mas não inveje. Trabalhe.

maio 30, 2008

Se sentir burro e sem inspiração pode ser maravilhoso. Direi como. Todo mundo sabe a estória de que, durante a ditadura, o Estadão publicava trechos de Os Lusíadas quando era censurado. Partindo dessa idéia, acho que blogueiros poderiam fazer uma adaptação para quando fossem censurados por seus prejudicados cérebros. Sempre que se sentissem burros e abandonados pela (não ria) musa, postariam algo que transbordasse inspiração. E assim, todo mundo sairia ganhando. Quem escreve fica feliz; não se frustra por haver falhado mais uma vez. Quem lê fica feliz; não passa pela tristeza de ver mais uma auto-indulgência descartável. Todo mundo fica feliz e sai cantando e rebolando, quase um musical. Donc, blogueiro, meu frater, da próxima vez que você se sentir burro e sem inspiração, faça como yo. Denuncie a censura:

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maio 28, 2008

Diogo Mainardi está errado. Infeliz, provavelmente não ouviu o melhor disco do ano. Amém, Al Green.

concertos pra juventude

maio 25, 2008

Pra cantar junto, clique:

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maio 23, 2008

Here is a true story about Samuel Beckett that is not in any of the many books about him.