Mas enquanto João Gilberto não vem, vamos retornar por um instante a 1997 e lembrar das duas ou três cerimônias de formatura que assistimos naquele ano. Quero que você tente sentir o desconforto habitual, a vontade de não estar ali; veja como o auditório está lotado, cornetas soando à medida que se anunciam os nomes dos formandos. À primeira vista, nada difere do que se vê nas formaturas de hoje. Mas preste atenção; repare bem.
E olha lá.
Olha lá a quantidade de jovens bacharéis usando gravatas com estampas de personagens Looney Tunes: Patolino, Pernalonga, Marvin, o Marciano. São muitos, e ainda que qualquer álbum de fotos da época os mostre felizes, sorrindo com suas gravatinhas, parecem todos obviamente ridículos agora que ninguém mais usa o adereço infame, abandonado porque houve um ponto na História em que as pessoas subitamente não quiseram mais ser vistas e tratadas como um espécime pertencente a 1997—o que possivelmente ocorreu já em 1º/01/98.

Essa gravata, a gravata de personagem Looney Tunes, é um excelente símbolo do que aqui vou chamar de Ironia Contemporânea, só que antes de avançar mais me parece útil dar logo minha definição do que vem a ser isso. Entendo que a Ironia Contemporânea é um jogo de linguagem cujos mecanismos podem ser facilmente compreendidos se estivermos de boa vontade, e peço licença para, a partir do próximo parágrafo, me tornar um pouco óbvio aos olhos de alguns de vocês.
Vejo a coisa estruturada em duas camadas, cada uma portando um fragmento da mensagem. Na primeira camada vem a literalidade do que se diz, e na segunda, o que se quer realmente dizer. Essas duas coisas—aquilo que literalmente se diz e aquilo que se quer realmente dizer—não podem coincidir. Antes, é preciso que exista um descompasso entre elas, a primeira camada criando uma expectativa a ser frustrada pela segunda. Digo uma coisa, mas o que eu realmente quero dizer é uma outra. A fim de que haja ironia, a relação entre as tais duas camadas não precisa ser contraditória ou paradoxal, necessariamente. Bastam a descoincidência e, principalmente, a intenção de criar essa descoincidência. Não existe ironia acidental, e eu faço questão de dizer isso porque, em minha experiência, tenho visto esse último aspecto ser um tanto desprezado. Tenho visto muita gente boa chamar de irônicas coisas que passam longe da ironia. Confunde-se ironia com paradoxo, com mera contradição, com aquilo que não passa de coincidência infeliz; a canção Ironic da canadense Alanis Morrissette parece ser o melhor exemplo disso. Nela, não sei se vocês se lembram, se enumeram situações que só possuem em comum o fato de absolutamente não serem irônicas—e aqui convém que eu me antecipe e diga que tampouco é irônico o fato de uma música que se chama Ironic não trazer nenhum exemplo de ironia. Isso é apenas um paradoxo. (Aos interessados, digo que vi uma exposição decente da diferença entre essas coisas ser feita por uma Zoe Williams, num artigo para o Guardian).
Retomemos agora o exemplo da gravata Looney Tunes para ver por que ela me parece ser um excelente símbolo de Ironia Contemporânea. Note que ali o primeiro nível está representado pelo objeto que lembra uma gravata: os sujeitos que em 1997 adornavam seu pescoço com aquilo comunicavam um aparente assentimento às regras de etiqueta que recomendam o uso de gravatas numa formatura. Na figura do Patolino, por outro lado, vemos o segundo nível, aquele em que os indivíduos expressavam sua verdadeira opinião sobre as ditas regras: numa cerimônia formal em que se pedem gravatas, uso uma que, por não ser formal, tampouco é gravata.
Fossem só essas características, teria razão quem dissesse que a Ironia Contemporânea não é assim tão diferente da velha e boa Ironia que nos acompanha desde os gregos. Mas há um traço distintivo que—creio eu—aconselha a tentativa de subclassificação, porque diz respeito com o desiderato do jogo. Enquanto Sócrates, fingindo ignorância etc., valia-se da ironia para levar seus discípulos a roçar a verdade, o que eu chamo de Ironia Contemporânea é o fenômeno acima descrito servindo a um propósito inteiramente gratuito. Subjacente ao jogo de linguagem, não se revela tomada de posição alguma. A Ironia Contemporânea é a ironia pela ironia. Quem quer que se dedique a observá-la mais detidamente verá que parcela expressiva dos que topam jogar seu jogo dá a impressão de só o fazer para participar ao resto da humanidade sua competência nele; é como se fazer uma ironia fosse o equivalente de hoje para a capacidade que, segundo Larkin, todo homem educado tinha para compor um verso e tocar alaúde no séc. XVII—e suponho que essa mania de ser irônico apenas para dizer que é capaz de ser irônico surgiu porque, nalgum ponto da segunda metade do séc. XX, ficou decretado que a coolness de um sujeito era diretamente proporcional ao quão habilidoso ele era ao fingir que gostava de uma coisa da qual ele na verdade não gostava tanto assim. É irônico? Ah, então é legal.
Meu argumento, embora meio silogístico, não me parece tão banal; caso contrário, podem ter certeza, o post seria menor. Penso que, como ironia virou sinônimo de cool, e como todos querem ser cool o tempo todo, todos passaram a ser irônicos o tempo todo. Creio que nenhum de nós estaria sendo leviano se dissesse que muitos dos sujeitos que usavam gravatas Looney Tunes em 1997, além de não estarem totalmente cientes dos níveis de mensagem que seu comportamento expressava, tampouco ligavam a mínima pra isso: se usavam aquelas gravatas, faziam-no principalmente porque queriam parecer ishpertos, descolados; quiçá nem sabiam que estavam sendo irônicos. Eles usavam aquelas gravatas pelos mesmos motivos que levam a que eu e alguns de vocês sejamos gratuitamente irônicos hoje; porque, por diversas razões, algumas das quais David Foster Wallace relacionou à televisão, o poderoso mantra “irônico, ergo cool”, a despeito do que tem de pedestre, se espraiou, virótico, por todos os lugares e está em toda parte.
Daí essa overdose de ironia gratuita, frívola e estéril. O exagero é tanto que, ao tempo em que eu escrevia este post, o google levava 0,09 segundos para me apontar 52.900 resultados na busca por “unironically”. Acredito que essa é a mais eloqüente demonstração do argumento que estou defendendo: só pode haver tanta necessidade de deixar claro que algo está sendo dito unironically porque, de alguma maneira, a ironia, de exceção, passou a regra. Reconheço, porém, a possibilidade de isso não ser tão presente na vida de alguns de vocês. É possível que isso seja coisa de gente que tem mais ou menos minha idade. Lembro que, ao tratar do que ele chamou de “culto da tosquice”, Pedro Sette Câmara escreveu:
[...] muitas vezes, ao ter contato com a geração dos nascidos nos anos 80, tenho a impressão de que a busca pela tosquice se tornou a norma. A quantidade de referências a coisas toscas que meus infantes amigos fazem é imensa, e o entusiasmo com que falam daquilo que na verdade desprezam, além de me dar a sensação de um abismo geracional, mostra, pelo distanciamento de si mesmos, o quanto de pose e cálculo existe nessa atitude. Pessoas que tiveram uma educação superior à média optam pela vulgaridade ao falar, escrever e consumir.
No que foi parcialmente corrigido por Alexandre Soares Silva, que disse que
[...] é verdade que não é fácil encontrar um homem de 45 anos, digamos, gostando de filmes ruins porque são ruins, falando que nem o Misto Eleazar e tal. É de fato um problema de geração, mas essa geração inclui a do Pedro: conheço muita gente de trinta e tantos que é assim.
Pedro disse não ter idéia das causas disso, e eu também não tenho; mas meu palpite é o de que seus infantes amigos estão apenas sendo porta-vozes da Ironia Contemporânea. Permitem-se fazer referência ao que é vulgar porque sabem que, devido ao contexto, a segunda camada, expressa na circunstância de haverem tido uma educação superior à média, não permite que corram o risco de serem tidos como gente vulgar. Escrevem como Misto Eleazar tomando o cuidado de ao mesmo tempo deixar claro que sabem a diferença entre uma redondilha menor e uma redondilha maior, a fim de que todos possam saber que eles estão sendo irônicos quando perguntam “como fas/”. Tudo o que eles querem é mostrar uns aos outros que são legais, que estão por dentro da brincadeira, e hoje a maneira mais eficaz de fazer isso é ser gratuitamente irônico. Digo isso sem esquecer que nasci nos anos 80 e sabendo que faço isso às vezes.
Mas também sei que ser irônico o tempo todo cansa; e às vezes me vem a desconfiança de que, no fundo, ironia gratuita em tempo integral pode ser apenas mais uma expressão de cinismo. Julgo, aliás, que o eventual interessado em fazer uma análise séria da Ironia Contemporânea—uma investigação que, a par de identificá-la e mostrar como ela funciona, se ocupasse de suas causas e dos motivos que levaram a essa sua quase onipresença; uma investigação que eu confesso não reunir condições para fazer—teria que testar a hipótese de que existe uma correlação entre ela e um tipo de cinismo que, em minha opinião, é hoje tão ubíquo quanto ela. Estou falando aqui deste cinismo covarde de que a gente lança mão quando não quer arcar com o ônus de abraçar uma causa, defender uma posição. Todo cínico sabe que a melhor maneira de pôr as coisas que diz fora do alcance de qualquer crítica é não revelar aquilo em que ele realmente crê. O cínico acha que é mais esperto que os outros quando faz seus comentários aparentando não expor senão seu próprio cinismo. Busca, com isso, escapar da crítica a que está sujeito todo aquele que aspira a ser tratado como adulto, a crítica na qual o cínico, em última instância, dando de ombros, sempre pode dizer não estar interessado. Mas além de cinismo—diria eu se tivesse alguma autoridade moral sobre vocês—, é bom que a gente saiba que os que assim agem também podem acabar revelando preguiça ou covardia. Arriscam jamais serem levados a sério; é o preço que se paga.
E é por passar boa parte do meu tempo ou sendo gratuitamente irônico, ou pensando nessas coisas todas, que eu, toda vez que quero tomar fôlego, descansar do jogo, experimentar um pouco de honestidade, me volto para João Gilberto, antônimo da ironia, sujeito que há décadas canta músicas que fizeram sucesso décadas antes de ele começar a cantar. Embora tenha gravado uma música de Lobão, episódio para o qual ainda não encontrei explicação, João Gilberto não faz concessões à Ironia Contemporânea; é a única pessoa que eu vejo cantar “quém-quém-quém” e emprestar sinceridade a cada grasno. É bem possível que, quando ele apareceu, cantando baixinho canções que faziam parte do repertório de Orlando Silva, muitos tenham achado que ele estava sendo irônico; no entanto, meus amigos, lá se vão cinqüenta anos, e ele continua cantando “Aos Pés da Cruz” do mesmo jeito; e se isso não prova que aquela gente estava errada, eu me chamo Farnésio Dutra e Silva, muito prazer. Diferentemente daquele seu fã dileto que cede à tentação de comunicar que também sabe jogar o jogo da Ironia Contemporânea ao incluir o funk do tapinha em seus shows, João Gilberto, no dia 05 de setembro de 2008, reclamará de algum ventinho no palco do Teatro Castro Alves, onde cantará sambas da década de 40 para uma platéia que, muito provavelmente, só poderia ser exposta àquele tipo de música, num contexto não-irônico, naquele lugar, àquela hora, e será a pessoa mais sincera num raio que vai do Campo Grande à Ribeira, enquanto eu, testemunha, encontrando pausa no meio da gritaria irônica, segurando a tua mão, meu amor, pensarei, mais feliz do que jamais estive, no post que escrevi meses antes, aquele post que você disse que eu devia terminar, aquele, o que encerrava com a frase “João Gilberto é refrigério” e ah, meu Deus, como eu estava certo.