Quando piauí apareceu há dois anos, eu e alguns de meus amigos festejamos o que parecia ser um grande acontecimento. Olha só: uma revista brasileira trazendo palavras além de figuras! Uma revista que assume a condição de revista para ser lida! Isso é mesmo uma grande novidade no Brasil de hoje!
Com o passar do tempo, porém, o entusiasmo cessou. Há algumas semanas, chegou aqui em casa uma proposta de renovação da assinatura da revista, com um desconto bastante generoso—segundo a carta, reconhecia-se que eu, um dos primeiros assinantes, fui também um dos primeiros a apostar no projeto deles e era, portanto, merecedor da distinção. Depois de refletir por quarenta e sete longos segundos, resolvi desconsiderar a oferta.
Deixei de ser assinante da revista, e é claro que os motivos são pessoais, como não poderia deixar de ser. Identifico um (digamos) motivo geral, mas há também um motivo particular. O motivo geral por que decidi não renovar a assinatura está ligado ao fato de que já não assino revista alguma atualmente; piauí era a última. Houve época em que fui assinante de quatro, cinco revistas ao mesmo tempo, mas resolvi mudar quando percebi que, devido à circunstância de passar boa parte do meu dia aqui na net, folhear uma revista tinha se tornado o jeito mais fácil de provocar déjà vu. Assim, as assinaturas dos semanários foram as primeiras que deixei expirar. Não fazia sentido ficar relendo as mesmas notícias que eu já tinha visto no google reader há três, quatro dias. Esse é um fenômeno geral. A impressão que tenho é a de que todo mundo sabe que revista, depois da internet, tem que ser outra coisa—todo mundo, menos os editores delas. Alguém precisa tomar coragem e dizer a eles que, com essa linha editorial, não dá pra competir com a internet. Aconteceu comigo o mesmo que tem acontecido com muita gente. Quando enfim percebi que nenhum dos semanários que eu lia prestava mais, fui parando de assiná-los. E enquanto eles não entenderem que precisam oferecer algo que eu não possa encontrar em três segundos no google, permaneço como estou.
O motivo particular é este aqui: já faz alguns meses que piauí, embora não seja um semanário, vem me frustrando; tornou-se um caso clássico de revista que promete mais do que efetivamente entrega. piauí poderia se beneficiar do fato de ter nascido com a proposta de não precisar reagir aos acontecimentos, oferecendo textos mais perenes. Em alguns momentos, é preciso reconhecer, ela até conseguiu. A edição deste mês, por exemplo, faz isso em certa medida. Além do conto de Nabokov, que eu já tinha lido há quatro meses, e do discurso de David Foster Wallace, que eu também já conhecia, há uma reportagem de João Moreira Salles sobre o "caseiro que derrubou Palocci cujo nome ninguém lembra e cuja estória ninguém conhece" que é jornalismo de excelência. Foi ela que me fez sentar para escrever este post, pensando alto sobre as razões por que deixei de assinar piauí. O texto de João Moreira Salles, que levou mais de um ano para ser escrito, quase me deu arrependimento de não ter renovado a assinatura. Eu já estava disposto a guardar essa revista, não só por ser a primeira vez que vejo um conto de Nabokov em português fora de um livro, mas também porque se trata da única reação da imprensa escrita brasileira à morte de David Foster Wallace (o maior atestado da mediocridade do nosso jornalismo risos cultural). Ontem, quando folheei a revista, pensei que seriam esses os pontos altos da edição de aniversário; mudei de idéia depois de ler a reportagem sobre o caseiro, que tem tudo o que uma grande reportagem deve ter, na minha ignara opinião. Caso resolva lê-la daqui a cinco, dez anos, estou quase certo de que vou sentir as mesmas coisas que senti hoje: no futuro, quando todo mundo tiver esquecido quem diabos é Palocci, ela vai continuar confirmando que política é uma máquina de moer gente, que eu estava certo quando tomei as decisões que tomei no passado etc. etc.
Mas quantos textos como esse foram publicados nos últimos dois anos? Pouquíssimos, respondo eu, que acompanhei. Não justifica ter uma assinatura. Se piauí mantivesse essa qualidade em todas as suas edições, continuaria contando com meu suado $. Não é esse o caso, porém. A revista é irregular. Insiste em reservar um espaço tímido para ficção (sim, já é algum espaço, mas poderia ser bem mais). Não consegue se decidir a respeito do tipo de humor que quer fazer. Traduz matérias de publicações americanas que eu posso ler na net, meses antes. Aliás, falando em internet, que motivo tenho eu para continuar assinando uma revista se, um mês depois, grandes são as chances de que eu possa ir a seu site e ler tudo o que me interessa?1 E para coroar, inda há o esquerdismo mal disfarçado. Do jeito que as coisas estão hoje, acho que eu só continuaria ostentando a condição de assinante se a revista estivesse com dificuldades para fechar as contas. Se fosse esse o caso, eu até atuaria como uma espécie de mecenas (porque sou sublime), mas diferentemente do Estado a que toma o nome emprestado, piauí vai bem das finanças, segundo me dizem. Não vai lhe trazer prejuízo algum a minha decisão radical de, a partir de hoje, só comprar edição que tiver texto de João Moreira Salles.
[1] A favor de piauí, registra-se que ela está entre as poucas revistas brasileiras que entenderam a internet, ao disponibilizar em seu site grande parte do conteúdo de suas edições anteriores. Espero que isso não mude.↩