resenha de blague

dezembro 02, 2008

Era uma vez eu ouvi ou li, acho que li, uma entrevista em que um desses "intelectuais" "famosos" "de Internet", talvez o polzonoff?, se não foi, bem que poderia ter sido, sim, está decidido que foi o polzonoff, reclamava da categoria de blagues a que pertencem, sempre em minha opinião, muitos dos melhores blagues que conheço. Estou falando da categoria Diário de Autista, que nenhum povo aperfeiçoou tanto quanto o brasiliense. Brasiliense, que nem povo é, é aglomerado. Fato é que a maioria dos blagues mantidos por brasilienses que conheço são muito bons e valem muito a pena, porque solipsistas, fofos e bem-escritos. Há pouco tempo recomendei o blague de Luigi, mas também tem esse outro que descobri hoje, par example, enquanto meu irmão tinha um pesadelo e repetia, tonitruante, "JÁ DISSE QUE ODEIO". Com dor de ouvido, às quatro da madrugada, aqui estou eu pensando nas razões por que esse blague é tão legal, e me ocorre que todos os motivos para sua legalice podem ser reconduzidos a um único; ele é tão legal porque mantido por um brasiliense. Como todo blague mantido por brasiliense, os posts de Toujours Vivão partem do lugar mais inesperado, passam por outros ainda mais esdrúxulos e encerram sem fazer sentido algum, e digo isso denotando elogio. Os brasilienses escrevem por livre associação de idéias, ao que parece, e ninguém consegue fazer isso como eles; este post tenta e falha terrivelmente, como vocês podem perceber. Em compensação, César Miranda, Andreis Passarinho, aquele que atendia por Marcelo Rota, ou aqueloutro a que se chamava Adrian, e outros tantos brasilienses fazem isso como se brincassem. Talvez seja essa a grande razão para a massice dos blagues brasilienses. Fica claro pra nós, leitores não-brasilienses, que os blagueiros brasilienses estavam se divertindo muito enquanto escreviam aquilo, e aí a gente não tem como não se divertir também. Veja que eles não ficam fazendo manifestos ou posts reclamões, quase nunca lincam pra ninguém, e quando reclamam de algo, o fazem de uma maneira toda brasiliense, ou seja, reclamam mas se importam com quem está lendo e, diferentemente dos blagueiros mineiros, jamais são desagradáveis ou moralistas em seus posts reclamões. Recomendo que você, caro leitor, querida leitora, passe a assinar o feed de dois ou três blagues brasilienses ainda hoje. A dor em meu ouvido direito beira o insuportável e me leva a pensar em coisas como, "Por que é que até agora ninguém inventou um blague de resenhas de blagues?"

uma réplica ao pró tensão, o portal atropo

novembro 20, 2008

Eu acho, César, que Blog é um lugar em que você escreve sobre tudo aquilo que você acha das coisas, e portanto quero falar agora de uma das muitas coisas que eu acho sobre o mundo de atualmente hoje em dia. Eu acho que, como tudo na vida, anglofilia tem que ter limites. De antemão aviso que estou cansado e com sono, sem dormir há um mês, então não espere inteligibilidade; não haverá muita. Aviso também que vou ser obrigado a usar aspas marotas ao longo do post, a primeira das quais virá agora: não sei, pode ser só impressão minha, mas tenho visto cada vez mais gente "escrevendo" em português enquanto pensa em inglês. Geralmente são pessoas que trabalham com tradução ou lêem muitas coisas em inglês ou sei lá o quê. Calma, calma, lê o resto, que você vai ver que eu não virei Albo Redelo (=> desviando do google). Houve época em que os intelectual do Brasil era tudo francófilo, mas agora todo mundo ficou anglófilo, ou pelo menos todo mundo que vale a pena, porque no século passado, a França, coitada, acabou, c'est finie. Veja bem, não estou reclamando da anglofilia; estou reclamando dessas pessoas que deveriam estar escrevendo em inglês, porque estão pensando em inglês, mas insistem em "escrever" em português. Gente que "escreve" evidência enquanto pensa em evidence. Hoje mesmo li uma frase em que não sei quem descobria evidências de que não sei o quê. E perguntei mentalmente, Vem cá, é evidência? Então não precisava descobrir, pois o que é evidente é evidente, não precisa ser descoberto. Se estivessem escrevendo em português, essas pessoas usariam indício ou sei lá que outra palavra, mas elas não estão escrevendo em português; elas estão pensando em inglês e "escrevendo" palavras portuguesas parecidas. É como se elas estivessem, bem, estou como sono, no momento não consigo pensar em nenhum símile legal para encerrar o post, então boa noite aí, fique com este vídeo desse gato maluco.

hmm que tal se eu transformasse isso aqui num lol cat blawg?

novembro 17, 2008

vamos então às páginas finais do Old Possum's Book of Practical Cats:

The Ad-dressing of Cats

You've read of several kinds of Cat,
And my opinion now is that
You should need no interpreter
To understand their character.
You now have learned enough to see
That Cats are much like you and me
And other people whom we find
Possessed of various types of mind.
For some are sane and some are mad
And some are good and some are bad
And some are better, some are worse―
But all may be described in verse.
You've seen them both at work and games,
And learnt about their proper names,
Their habits and their habitat:
But
   How would you ad-dress a Cat?

So first, your memory I'll jog,
And say: A CAT IS NOT A DOG.

Now Dogs pretend they like to fight;
They often bark, more seldom bite;
But yet a Dog is, on the whole,
What you would call a simple soul.
Of course I'm not including Pekes,
And such fantastic canine freaks.
The usual Dog about the Town
Is much inclined to play the clown,
And far from showing too much pride
Is frequently undignified.
He's very easily taken in―
Just chuck him underneath the chin
Or slap his back or shake his paw,
And he will gambol and guffaw.
He's such an easy-going lout,
He'll answer any hail or shout.

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Again I must remind you that
A Dog's a Dog―A CAT'S A CAT.

With Cats, some say, one rule is true:
Don't speak till you are spoken to.
Myself, I do not hold with that―
I say, you should ad-dress a Cat.
But always keep in mind that he
Resents familiarity.
I bow, and taking off my hat,
Ad-dress him in this form: O CAT!
But if he is the Cat next door,
Whom I have often met before
(He comes to see me in my flat)
I greet him with an OOPSA CAT!
I think I've heard them call him James―
But we've not got so far as names.
Before a Cat will condescend
To treat you as a trusted friend,
Some little token of esteem
Is needed, like a dish of cream;
And you might now and then supply
Some caviare, or Strassburg Pie,
Some potted grouse, or salmon paste―
He's sure to have his personal taste.
(I know a Cat, who makes a habit
Of eating nothing else but rabbit,
And when he's finished, licks his paws
So's not to waste the onion sauce.)
A Cat's entitled to expect
These evidences of respect.
And so in time you reach your aim,
And finally call him by his NAME.

So this is this, and that is that:
And there's how you AD-DRESS A CAT.

LOL cat.PV__.jpg

novembro 09, 2008

A NYer está nos oferecendo acesso livre às versões digitais de suas próximas quatro edições pra que a gente veja como é que o Digital Reader deles funciona.

novembro 06, 2008

Alguma coisa acontece no meu coração quando um dos melhores blogs lusófonos encerra suas atividades. RIP puragoiaba. Muito nos honra ter estado à sua sombra.

novembro 05, 2008

EUA, 1960
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EUA, 2008
OBAMA.450.jpg

campanha "sou mais Seu Jorio"

novembro 04, 2008

Chega a notícia de que a Alfaguara é a nova dona dos direitos sobre a obra de Nabokov no Brasil. Setembro do ano que vem, num lançamento mundial, nossas prateleiras terão The Original of Laura em português. Pretensão é a de publicar um livro de São Volodya a cada 75 dias; The Real Life of Sebastian Knight será o terceiro. Por um lado é bom, mas por outro...

"Serão 12 títulos, entre já conhecidos e inéditos no mercado brasileiro, todos com nova tradução" (grifei). Essa última parte da estória é a que me deixa mais angustiado. Porque, como todos o sabem, Jorio Dauster é o profeta. Que é isso de nova tradução? E o pior é que já consigo até ver as matérias da época do lançamento do Lolita novo, tudo quanto é jornal falando de como o "minha alma, minha lama" de Seu Jorio virou o―

:(

eita, e agora?

outubro 27, 2008

Você conhece a série Domingo com poesia, de Pedro Sette Câmara, não conhece? Espero que sim, porque é legal. O post de ontem apresentou um poema de Elizabeth Barrett Browning, traduzido por Manuel Bandeira, e começou com esta ressalva:

[...] é preciso ter algum conhecimento da história de Robert Browning e Elizabeth Barrett para entender por que os Sonnets from the Portuguese que ela escreveu são os “Sonetos da Portuguesa”: como Barrett tivesse um pé na Jamaica, parecia um pouco mestiça, e Browning a chamava de “minha portuguesinha” (my little Portuguese) [...]

Hmmm. “Sonetos da Portuguesa”... Será? Bem, ao que parece, não era essa a opinião de Carpeaux, apud Ivan Junqueira, que logo no primeiro parágrafo da introdução ao segundo volume dos Ensaios Reunidos (UniverCidade Editora/Topbooks, 2005), conta a seguinte anedota:

Não me lembro com exatidão do dia do mês de outubro de 1962 em que conheci Otto Maria Carpeaux. Recordo-me apenas de que era uma dessas manhãs ensolaradas de primavera quando ouvi, pela primeira vez, a voz tonitruante daquele homem tomado de cólera diante da tradução inexata, ou mesmo estapafúrdia, que fizera um dos colaboradores da Enciclopédia Barsa do título de um dos livros de poesia de Elizabeth Barrett Browning: Sonnets from the Portuguese. O colaborador havia traduzido, entre parênteses, como preconiza a boa norma enciclopédica, Sonetos da portuguesa, em vez de Sonetos do português (ou seja, da língua portuguesa), muito provavelmente porque ouvira contar a história de que o marido da autora, o poeta Robert Browning, costumava chamá-la carinhosamente de "minha portuguesinha" por causa do amor que devotava ao idioma de Camões.

E agora? É mentira de Ivan? O colaborador foi injustiçado? Pedro está certo? Carpeaux errou?

É mermo, Firpo: ficou uma boniteza o disco da bandinha de Amarante.

nós, os relativamente virgens

outubro 25, 2008

Tratando da importância do bom manejo do DETALHE nos livrinhos, escreve James Wood na p. 53 de How Fiction Works (Jonathan Cape, 2008) algo parecido com:

Basta você ir ensinar literatura para perceber que grande parte dos jovens leitores são maus observadores. Tomando como referência meus próprios livros velhos, copiosamente anotados pelo estudante que eu era há vinte anos, sei que eu freqüentemente sublinhava, sinalizando aprovação, detalhes, imagens e metáforas que agora me parecem lugares-comuns, ao passo que ignorava serenamente coisas que hoje julgo maravilhosas. A gente cresce, enquanto leitores, e os que têm vinte anos são relativamente virgens. Ainda não leram literatura o suficiente para com ela aprender o modo como se deve lê-la.

Pois é, jovem relativamente virgem como eu: é doloroso, é doloroso―é a verdade. Li esse trecho e não pude senão imaginar o dia em que isso será lido pelo jovem jornalista risos cultural que num debate no ano passado revelou, sem vergonha alguma, que só se sentiu confortável para escrever sobre literatura depois de 2 anos lendo. Isso mesmo que você leu: 2 (dois) anos. O que é quase praticamente uma vida né.

Numa nota relacionada, aproveito para desabafar meu espanto cada vez maior com quem reivindica para si a condição de romancista sem (ou, pior, sem nem ao menos reconhecer a importância, a necessidade, o dever de) ter lido Flaubert―a quem, por sinal, JW dedica dois capítulos. Mas também, pensando bem, qual o problema? Que problema há em deitar-se na mesa de cirurgia do médico que se orgulha de nunca ter tocado num bisturi?

Penso também no jovem autor brasileiro, premiado, que sangra a própria mão e baba iogurte e tira foto do resultado para produzir capas de livros seus, e defende que a receita do sucesso é "[l]er muito, mas não em excesso, para não correr o risco de virar um crítico literário de sua própria obra".

Repetindo a fórmula para quem não creu (atenção, revisor: creu não é créu):

$egredo do $uce$$o = ler muito, mas não ler em excesso
(Ah, Eliot, vai lá puxar o pé dele de noite, vai)

Mas é melhor deixar de picuinhas; o objetivo aqui é recomendar entusiasticamente o livro de JW, um curso completo de creative writing dotado da grande vantagem de não custar os olhos da cara. Estou lendo e gostando bastante. É verdade que, ocasionalmente, eu me lembro do jovem jornalista brasileiro, do jovem autor brasileiro, e uma lagriminha começa a se formar—mas aí, machamente, eu a reprimo.

outubro 21, 2008

É bem triste a matéria escrita à propos da morte de David Foster Wallace que saiu nessa última Rolling Stone, a que tem Obama na capa. Aconselho salvar no HD porque quem subiu avisou que esse link não vai funcionar para sempre. Em uma das fotos que ilustram a página 106, vemos Dave escrevendo numa prancheta, sentado em frente a uma estante que exibe dois gigantescos volumes da edição compacta do OED e, mais acima, um livro grosso em cuja lombada figuram, garrafais, as letras N, A, B, O, K, O e V.

Update: a RS subiu a íntegra do artigo.

Descrição da comunidade dedicada a Pietro Nassetti no orkut:

Comunidade em homenagem a esse patrimônio da nossa nação, homem de inefável erudição, filósofo, matemático, teólogo, botânico, compositor, poeta, decorador de interiores e tradutor venerandíssimo, que contribuiu ao corpus editorial brasileiro com obras do etrusco, do grego eólico, do sânscrito védico, do hebraico pré-bíblico, do eslavo eclesiástico antigo e do chinês da dinastia Wú.

Pietro Nassetti traduziu para o português o Bhagavad-Gita, o Alcorão, os Analetos de Confúcio, o Livro dos Mortos egípcio, a História dos Reis da Noruega de Snorri Sturluson — aliás, numa edição belíssima da Martin Claret —, e, direto do Pali, a opera omnia de Buda.

Pietro Nassetti fala braile e lê Linear-B.

Vale a pena também conferir a linda tradução que ele fez do Orlando Furioso para LIBRAS.

Quando Pietro Nassetti acha algo muito fácil, ele diz "'Tis Greek to me!".

Meta: fazer um Pietro Nassetti Facts, apresentando-o como o Chuck Norris literário brasileiro.

três coisas legais que o capitalismo me deu hoje

outubro 20, 2008

Comprei na pré-venda da Saraiva, que me cobrou $0 de frete e me deu 20% de desconto, os dois livros de JPP que serão lançados no fim deste mês: o que reúne a poesia completa e o de ensaios. Bagatela. E ainda deu pra dividir tudo em 3x.

Visitei o blog coletivo patrocinado pela Bavaria que a partir de hoje vai reunir Cardoso, Mojo, Renato Parada, Träsel, Cecília Giannetti e Arnaldo Branco.

E baixei a mixtape do Costa a Costa, grupo de rap de Fortaleza (periferia ensolarada do capitalismo) que é SURREAL 100% MASSA. Pra ter idéia do que se trata, pegue De Leve e o Quinto Andar, tire as letras engraçadinhas e no lugar ponha peso (não é à toa que a mixtape se chama "Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência") e bote sobre uma base que mistura tudo que é ritmo dançante já concebido, carimbó, brega, samba, música latina etc. O resultado vai ser mais ou menos este:

outubro 18, 2008

E agora, com vocês, esta leitura dramática de uma carta 100% real pondo fim a um relacionamento—carta, essa, escrita por uma pessoa também 100% real. Espirrei coca-cola pelo nariz e melei tudo aqui quando chegou a parte do I HATE YOU I HATE YOU MORE THAN ANYTHING IN THIS DAMN WORLDDDDDDDDDD.

não se faça de mouco

Não não não oh não faça como eu fiz, não se faça de mouco, faça o esforço necessário para ouvir isto que tenho a lhe dizer, porque eu certamente me arrependo de não ter ouvido quando me disseram e agora, tendo finalmente visto, anseio por espalhar a boa-nova aos que ainda não ouviram (sim estou bêbado) com o entusiasmo desses recém-convertidos que, ignorados por todos e movidos apenas por essa fé que os cega de razão, esbravejam em praça pública e brandem a Palavra, firmes na convicção de que fazem a coisa certa, agindo assim por ser essa, no fundo, a única coisa a ser feita quando se vê a, ah, você também verá quando for chegada a sua hora, que espero seja logo—e quando isso acontecer você também julgará ter tocado nalgo que nem desconfiava estar ali, a luz refletindo sobre frases tão convolutas quanto límpidas e se tornando o estímulo contínuo que faz vibrar áreas de seu cérebro que ninguém daqui jamais conseguiria divisar, tudo se passando de maneira tal que o que à primeira vista parecia linear palavra palavra palavra vai voltar-se sobre si mesmo, entremeado por vírgulas que você só crerá possíveis porque as estará vendo diante de si, inesperados pronomes relativos que, veja, lá vão eles, estão indo dar em cerca de dois mil cavalos selvagens que cruzam em disparada essa planície gaucha formada pelas mesmas vinte e poucas letras que compõem as outras tantas e tantas imagens que no fim também não vão desaparecer tão cedo de sua memória, todas elas virando parte de sua experiência e portanto também um pouquinho daquilo que você ainda não é mas que passará a ser quando fechar o livro e se perguntar por que diabos só está vendo aquilo tudo só agora, outubro de dois mil e oito, sendo que pô bastava alguém ter feito um esforço um tantinho maior, te pegando pelos ombros e sacudindo, sacudindo, sa-cu-din-n-n-n-do e repetindo, olhos arregalados, LEIA SAER LEIA SAER LEIA JUAN JOSÉ SAER.

chora, Chitão; chora, Xororó

outubro 16, 2008

A essa altura você já sabe que durante esta semana o Dinosaurs Comics está sendo tocado por convidados e que amanhã a tirinha virá da pena do carinha do xkcd. Se não sabia, clica:

[mais]

the translator should spell out what his biases are

outubro 14, 2008

De Elizabeth Bishop, assim como de poesia em geral, conheço pouco; de quando em vez leio The Fish―"[...] until everything/ was rainbow, rainbow, rainbow!"―, One Art, e pronto: é tudo. Uma vergonha. Hoje à noite, disposto a dar um jeito nessa minha ignorança, dei o primeiro passo tirando da estante o volume de suas cartas que a Cia. das Letras editou e depois vim aqui na internet ver se achava algumas das versões que PHB fez para seus poemas; Uma Arte eu já conheço. Como estava com sono, tive pouco êxito. Queria ver se achava, quem sabe, O Peixe―não achei, mas o esforço (de 36s) não foi em vão. Reencontrei e reli um texto que PHB apresentou num encontro da ABRAPT, em 2001, marcando sua despedida de Bishop. AMP, que lá estava, me disse que o cara é uma simpatia ("Tá com tudo e não tá prosa"), e eu disso não duvido. Gosto muito desses textos em que ele fala de seu ofício. É fácil explicar por quê:

At this time of day, no literary translator can afford to be as naive as to believe he is merely a colorless medium for the rewriting of a work of a literature in a different language; all translation is necessarily shaped by the translator’s expectations and prejudices. Of course, consciously the translator must aim for a reasonable degree of transparency — and the fact that absolute transparency is unattainable is no reason not to pursue it, just as the fact that immortality is unattainable is no reason why we should all go and commit suicide. But the translator should spell out what his biases are, to the extent that he is aware of them, in all fairness to the author of the original and to the readers of his translation. This is perhaps an additional meaning of transparency that has not received enough attention: transparency of the translator’s intentions. I believe it is just as important as the other kind.

O link pra ler tudo é este aqui. Clique. É bem bom. Lá ele diz que, antes de 1994, quando foram publicadas as cartas de Bishop, ele a conhecia tanto quanto eu hoje: very little (quer dizer então que há esperança?). E também diz que não gosta de The Fish tanto assim (!). Mas isso foi em 2001, talvez hoje ele já tenha mudado de opinião. Vocês, que leram "O Iceberg Imaginário - E outros poemas", sabem se ele incluiu esse poema lá, a despeito de seu gosto? Você tem esse livro, Marcus? Ajudem esse ignorantão. Que podia estar matando, que podia estar roubando…mas está aqui, numa bowa, pedindo!

Update: E parece que não é só PHB que não gosta de The Fish. Trecho de carta de EB a Marianne Moore datada de 5.II.1940: "[...] Queria muito ver alguns dos seus poemas novos. Estou lhe mandando um poeminha bem bobo ['The fish']. Acho que ele é muito ruim, e se não parece Robert Frost talvez lembre Ernest Hemingway! O último verso é para ver se ele fica diferente, mas não sei, não [...]"

Update 2: Luciano, esse espírito bondoso, fez a grande gentileza de me mostrar a versão de PHB—que é sublime, meus caros, e está transcrita na extended entry.

[mais]

outubro 13, 2008

O Prosa & Verso entrevistou Daniel Galera, que está lançando Cordilheira.

Sem o gesto em direção ao outro você não tem literatura, mas uma escrita que interessa só ao autor. É paradoxal, porque acho que todo autor escreve a partir de necessidades muito egoístas: expressar suas idéias, se fazer ouvir, satisfazer a vaidade, milhares de coisas, mas são impulsos basicamente egoístas. Você está fazendo aquilo para si mesmo. [...] O paradoxal da coisa é que um livro bom, quando está terminado, estende a mão para o leitor. Ele começou a ser produzido por um impulso egoísta, mas só se fez boa literatura porque buscou a leitura, a absorção do outro. Sem isso, acho que um livro não é bom. Um livro que não termina como uma busca de compaixão por parte do autor, de que aquilo que ele colocou no livro seja experimentado pelos outros, tem menos força.

Nem todo gênio é precoce, defende Gladwell na NYer, em artigo cujas palavras-chave são: Late Bloomers, Ben Fountain, Jonathan Safran Foer, Writers, Pablo Picasso, Paul Cézanne, David Galenson.

making and judging blogs

outubro 12, 2008

as dictated by the spirit of W. H. Auden

If blogging were in great public demand so that there were overworked professional bloggers, I can imagine a system under which an established blogger would take on a small number of apprentices who would begin by changing his templates, advance to typing his manuscripts, and end up by ghost-writing posts for him which he was too busy to start or finish. The apprentices might really learn something...

In fact, of course, a would-be blogger serves his apprenticeship on the Internet. This has its advantages. Though the Master is deaf and dumb and gives neither instruction nor criticism, the apprentice can choose any Master he likes, living or dead, the Master is available at any hour of the day or night, lessons are all for free, and his passionate admiration of his Master will ensure that he work hard to please him...

We must assume that our apprentice does succeed in becoming a blogger, that, sooner or later, a day arrives when his Censor is able to say truthfully and for the first time: “All the words and HTML codes are right, and all are yours.”

His thrill at hearing this does not last long, however, for a moment later comes the thought: “Will it ever happen again?” Whatever his future life as a wage-earner, a citizen, a family man may be, to the end of his days his life as a blogger will be without anticipation. He will never be able to say: “Tomorrow I will write a meme and, thanks to my training and experience, I already know I shall do a good job.” In the eyes of others a man is a blogger if he has written one good post. In his own he is only a blogger at the moment when he is making his last revision to a new post. The moment before, he was still only a potential blogger: the moment after, he is a man who has ceased to write posts, perhaps for ever.

como fazer um post sobre o centenário da morte de Machado de Assis

Dê este link. É o que basta.

outubro 10, 2008

Ainda não tinha visto este StumbleAudio. É decente. Por alguma razão desconhecida, lá dá pra ouvir todas as ótimas músicas do último CD de Mario Ulloa, na íntegra.

outubro 07, 2008

Finalmente subiram no youtube o anúncio que João Gilberto gravou para a Vale (ex-do Rio Doce).

por que não renovei minha assinatura de piauí

Quando piauí apareceu há dois anos, eu e alguns de meus amigos festejamos o que parecia ser um grande acontecimento. Olha só: uma revista brasileira trazendo palavras além de figuras! Uma revista que assume a condição de revista para ser lida! Isso é mesmo uma grande novidade no Brasil de hoje!

Com o passar do tempo, porém, o entusiasmo cessou. Há algumas semanas, chegou aqui em casa uma proposta de renovação da assinatura da revista, com um desconto bastante generoso—segundo a carta, reconhecia-se que eu, um dos primeiros assinantes, fui também um dos primeiros a apostar no projeto deles e era, portanto, merecedor da distinção. Depois de refletir por quarenta e sete longos segundos, resolvi desconsiderar a oferta.

Deixei de ser assinante da revista, e é claro que os motivos são pessoais, como não poderia deixar de ser. Identifico um (digamos) motivo geral, mas há também um motivo particular. O motivo geral por que decidi não renovar a assinatura está ligado ao fato de que já não assino revista alguma atualmente; piauí era a última. Houve época em que fui assinante de quatro, cinco revistas ao mesmo tempo, mas resolvi mudar quando percebi que, devido à circunstância de passar boa parte do meu dia aqui na net, folhear uma revista tinha se tornado o jeito mais fácil de provocar déjà vu. Assim, as assinaturas dos semanários foram as primeiras que deixei expirar. Não fazia sentido ficar relendo as mesmas notícias que eu já tinha visto no google reader há três, quatro dias. Esse é um fenômeno geral. A impressão que tenho é a de que todo mundo sabe que revista, depois da internet, tem que ser outra coisa—todo mundo, menos os editores delas. Alguém precisa tomar coragem e dizer a eles que, com essa linha editorial, não dá pra competir com a internet. Aconteceu comigo o mesmo que tem acontecido com muita gente. Quando enfim percebi que nenhum dos semanários que eu lia prestava mais, fui parando de assiná-los. E enquanto eles não entenderem que precisam oferecer algo que eu não possa encontrar em três segundos no google, permaneço como estou.

O motivo particular é este aqui: já faz alguns meses que piauí, embora não seja um semanário, vem me frustrando; tornou-se um caso clássico de revista que promete mais do que efetivamente entrega. piauí poderia se beneficiar do fato de ter nascido com a proposta de não precisar reagir aos acontecimentos, oferecendo textos mais perenes. Em alguns momentos, é preciso reconhecer, ela até conseguiu. A edição deste mês, por exemplo, faz isso em certa medida. Além do conto de Nabokov, que eu já tinha lido há quatro meses, e do discurso de David Foster Wallace, que eu também já conhecia, há uma reportagem de João Moreira Salles sobre o "caseiro que derrubou Palocci cujo nome ninguém lembra e cuja estória ninguém conhece" que é jornalismo de excelência. Foi ela que me fez sentar para escrever este post, pensando alto sobre as razões por que deixei de assinar piauí. O texto de João Moreira Salles, que levou mais de um ano para ser escrito, quase me deu arrependimento de não ter renovado a assinatura. Eu já estava disposto a guardar essa revista, não só por ser a primeira vez que vejo um conto de Nabokov em português fora de um livro, mas também porque se trata da única reação da imprensa escrita brasileira à morte de David Foster Wallace (o maior atestado da mediocridade do nosso jornalismo risos cultural). Ontem, quando folheei a revista, pensei que seriam esses os pontos altos da edição de aniversário; mudei de idéia depois de ler a reportagem sobre o caseiro, que tem tudo o que uma grande reportagem deve ter, na minha ignara opinião. Caso resolva lê-la daqui a cinco, dez anos, estou quase certo de que vou sentir as mesmas coisas que senti hoje: no futuro, quando todo mundo tiver esquecido quem diabos é Palocci, ela vai continuar confirmando que política é uma máquina de moer gente, que eu estava certo quando tomei as decisões que tomei no passado etc. etc.

Mas quantos textos como esse foram publicados nos últimos dois anos? Pouquíssimos, respondo eu, que acompanhei. Não justifica ter uma assinatura. Se piauí mantivesse essa qualidade em todas as suas edições, continuaria contando com meu suado $. Não é esse o caso, porém. A revista é irregular. Insiste em reservar um espaço tímido para ficção (sim, já é algum espaço, mas poderia ser bem mais). Não consegue se decidir a respeito do tipo de humor que quer fazer. Traduz matérias de publicações americanas que eu posso ler na net, meses antes. Aliás, falando em internet, que motivo tenho eu para continuar assinando uma revista se, um mês depois, grandes são as chances de que eu possa ir a seu site e ler tudo o que me interessa?1 E para coroar, inda há o esquerdismo mal disfarçado. Do jeito que as coisas estão hoje, acho que eu só continuaria ostentando a condição de assinante se a revista estivesse com dificuldades para fechar as contas. Se fosse esse o caso, eu até atuaria como uma espécie de mecenas (porque sou sublime), mas diferentemente do Estado a que toma o nome emprestado, piauí vai bem das finanças, segundo me dizem. Não vai lhe trazer prejuízo algum a minha decisão radical de, a partir de hoje, só comprar edição que tiver texto de João Moreira Salles.

[1] A favor de piauí, registra-se que ela está entre as poucas revistas brasileiras que entenderam a internet, ao disponibilizar em seu site grande parte do conteúdo de suas edições anteriores. Espero que isso não mude.

outubro 06, 2008

Eita que fazia tempo que eu não me empolgava com um nº de piauí, mas a edição do 2º aniversário tá massa. Tem conto de Nabokov, traduzido por Jorio Dauster (sim, é o conto que saiu na NYer em junho). E tem uma adaptação do Kenyon Commencement Speech de David Foster Wallace, que por enquanto dá pra ler de graça. Recomendo com fervor.

Edição Especial Comemorativa do Centenário do CoL

Mastigando gomas, relembrando velhas formigas e observando felinos dormindo à distância, estalo a carcaça na sala ardendo silente na madrugada quente que vive meu cotovelo este finalzito de setembro. Uns quase vinte graus lá fora, a dobradiça do braço sofrendo no esfregaço do abrigo: comprei na C&A. Um feixe muscular que se faísca inteiro do peito à barriga do pé me dá a dica. Vario a posição dos tornozelos descruzando as canetas. Faço assim troça e (principalmente) muxoxo do universo. Driblo a gangrena com graça e destemor. Pisco forte, lavo as orbes com vontade. A língua repousando seca na bocarra; um odor de bunda emanando firme da cavidade (bucal). Estou sentado há muito tempo na mesma posição.

Assim começa a Edição Especial Comemorativa do Centenário do Cardoso on Line. Recebi ontem à noite. São 29 páginas. As of now, ainda não vazou em sites e blogs. Só tá rolando por e-mail. (Nome disso é Respeito). Se você não recebeu, me manda um e-mail (eusoutiago at e-mail do google), que eu carinhosamente fwd pra você.

Pra baixo, agora.

outubro 03, 2008

O universo em escala logarítimica. Por favor alguém me dá o pôster, peço.

"faço de graça"

setembro 20, 2008

Atenção, Prezado Senhor Que Decide As Coisas Na Companhia Das Letras: o professor e tradutor Caetano Waldrigues Galindo, que apresentou uma tradução de Ulisses como anexo à sua tese de doutorado (!), disse:

Não. Eu não estou traduzindo IJ1. Gostaria muito, claro. Mas não. Se a Cia resolver editar, sei que o Daniel Galera gostaria de traduzir. Mas é claro que se ele não puder eu me ofereço. Faço de graça.

Sim. Caetano Waldrigues Galindo traduziria 1.079 páginas de prosa nada fácil por R$0. Ele não está brincando.

Proponho uma campanha na internet: algo na linha "Queremos Don Gately No Vernáculo".

[1] Acrônimo de ij.jpg, de David Foster Wallace (R.I.P.).